Albert Einstein

A apaixonante história científica de Albert Einstein na Ilha do Príncipe

Se alguém perguntar ao leitor “quem acha que é o maior cientista de sempre?” É provável que respondesse Albert Einstein. Caso não seja essa a sua resposta, é ainda provável que esse nome estivesse para si pelo menos entre os cinco maiores cientistas da História da Humanidade.

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 Mas, quem é Albert Einstein? Porquê é tão aclamado? Albert Einstein nasceu a 14 de Março de 1879  na pequena cidade de Ulm, na Alemanha. Que um dia essa pequena criança alemã de origem judaica (que ficou entretida por dias a fio com uma pequena bússola oferecida pelo pai) faria parte do leque de génios da Humanidade não passava pela mente de ninguém na altura. Aliás, um dos seus professores de Física da Escola Politécnica Federal Suíça em Zurique (lugar onde se formou), após identificar uma rebeldia e ousadia anormais no seu jovem aluno, endereçou uma carta a todos os seus colegas de profissão pedindo que Einstein após a formatura não fosse aceite em nenhum estabelecimento de ensino superior como professor.

Fato que efetivamente viria a acontecer, relegou o recém-formado físico para um modesto emprego como técnico de patentes de terceira classe no Serviço Suíço de patentes em Berna, Suíça. Vaticinaram os professores de Einstein: “não alcançarás nada de grande na vida”. Surpreendentemente, o futuro viria a provar que eles estavam errados.

Embora o título de “maior cientista de sempre” seja discutível  se  atendermos  a nomes como Isaac Newton (1643-1727), Michael Faraday (1791 – 1867), Charles Darwin (1809 – 1882), James Clerk Maxwell (1831 – 1879), entre outros, os trabalhos científicos de Einstein em 1905 foram tão assombrosos, que muitos apelidaram aquele ano de “annus mirabilis”, ou seja, o “ano milagroso de Einstein”. A primeira vez que o alemão se interessou profundamente por questões de Física foi aos 16 anos quando se perguntou: “como será andar sobre um raio de luz?”.

Essa simples e inofensiva pergunta despertou a sua mente para outras questões, eventualmente mais complexas, tais como: “o que é a luz”? “Qual é a sua relação com o espaço”? São perguntas essenciais para as suas descobertas seguintes, sendo que uma delas ligaria o cientista às ilhas “maravilhosas” de São Tomé e Príncipe. Por outro lado, parece que não era só o desejo profundo de compreender as coisas que guiava Einstein. Uma vez o cientista disse: “Eu quero saber como Deus criou este mundo. Não estou interessado neste ou naquele fenómeno [em particular]. No espectro deste ou daquele elemento. Eu quero conhecer os pensamentos de Deus [sobre a criação do universo]. O resto é detalhe”. A verdade é que o Deus de Einstein não é o Deus da religião cristã. Quando lhe perguntaram se ele acreditava em Deus, ele respondeu: “Eu acredito no Deus de Espinoza, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe”. Baruch Espinoza (1632 – 1677) foi um filósofo holandês do século XVII, que escreveu: “minha casa [a casa de Deus] está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso o meu amor por ti (…) ”.

Portanto, para ele, estava em causa um Deus que se revela a si mesmo na natureza e garantia a ordem e o caos de todo o universo de forma inteligente. Doravante, Einstein acreditaria que a sua missão seria a de revelar as leis matemáticas da natureza criadas por Deus e que se aplicariam a toda a Física.

Mas, o que esse cientista tem a ver com a ilha do Príncipe que pertence ao país São Tomé e Príncipe?

A ilha do Príncipe é a menor das ilhas de São Tomé e Príncipe. Possui cerca de 142 km² e cerca de 7000 habitantes. Príncipe é uma ilha conhecida pela sua paisagem verde, fauna e flora únicas, lugares recônditos e inexplorados, gente hospitaleira e sorridente. A ilha do Atlântico também pode ser vista como um grande laboratório e um grande parque para os cientistas que estudam a natureza e os animais, uma vez que a sua diversidade de plantas e animais endémicos granjeou-a em 2012 o título de Reserva Mundial da Biosfera da UNESCO. Príncipe começa tornando-se um lugar de paragem obrigatória, pela sua combinação de turismo de praia e lazer com o turismo ecológico e rural.

No entanto, a relação entre Príncipe e os trabalhos científicos de Einstein é outra que não o estudo das espécies endémicas ou o turismo. A ilha do Príncipe é trazida ao centro do mundo científico do século XX e geraria uma das histórias mais apaixonantes e românticas na busca pela verdade científica. Francis Bacon (1561- 1626), um filósofo e político inglês da Idade Moderna, se tornou responsável pelo seguinte princípio científico: “só é verdade científica o que pode ser provado aos outros através da experiência científica, e cujo resultado pode ser imitado ou replicado por um outro cientista”. O mesmo se aplicou a dada altura a Albert Einstein. A relação entre a famosa teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein e a ilha do Príncipe é que aquela teoria teria de ser provada, e segundo o cálculo dos astrónomos, o lugar ideal para o exame científico seria naquela pequena e longínqua ilha situada no Golfo da Guiné, no continente africano.

Credito Photo:Estrela Matilde

Homenagem a Albert Einstein e Artur Eddington na Ilha do Príncipe – Photo:Estrela Matilde

A teoria da Relatividade Geral de Einstein, de todas as teorias do cientista, em 1919, era a única que ainda carecia de prova e o motivo era na altura óbvio. Ela dizia coisas estranhas e contraintuitivas como o espaço e o tempo serem uma coisa só, e que a gravidade que mantém as pessoas, animais, objetos e tudo resto “colados ao chão do planeta terra”, mais não é do que alterações na geometria desse espaço – tempo, em forma de curva, causadas por corpos celestes com enorme massa como o Sol, que assim puxavam para si outros corpos celestes (como o próprio planeta terra) através dessa curvatura (como uma areia movediça que não “engole” o  objeto, mas puxa-o e fá-lo girar à volta do centro dela)”.

Esse “puxão”, exercendo enorme pressão, prende os objetos no solo (pois a própria terra também distorce o espaço ao seu redor  e chama para si a matéria existente sobre ela, como as pessoas, e à sua volta, como a lua). O mesmo acontece quando alguém se senta em cima de uma cama e o colchão parece “afundar-se” à volta do traseiro da pessoa, e tudo o que estiver perto do lugar onde a pessoa está sentada, salta para próximo do centro da força exercida por si (onde a pessoa se sentou).

Assim, quando há essa distorção no espaço – tempo causado por um grande corpo celeste (como o sol ou a própria terra), o corpo celeste de menor massa (por exemplo o planeta terra à volta do sol ou a lua à volta da terra) tende a “gravitar” ou andar à volta do corpo celeste de maior massa, numa trajectória que já Isaac Newton tinha dito ser de um círculo mais alongado (elíptica), como se fosse um ovo (embora o planeta Mercúrio não obedecia às leis de Newton, outra prova da relevância da teoria de Einstein que já explicava porquê aquele planeta tinha um movimento à volta do sol anormal). Se o espaço foi distorcido e tornado curvo, a única forma de comprovar a teoria é supor que algum objeto celeste ao passar por esse “lugar curvo” veria a sua trajetória “dobrada” (como um carro a seguir uma curva na estrada porque não tem “mais para onde ir”), seguindo a curvatura do espaço-tempo.

observação astronómica realizada na Ilha Príncipe -Estrela Matilde

Observação astronómica realizada na Ilha Príncipe -Photo: Estrela Matilde

A própria terra e outros planetas seguem essa “curvatura” à volta do sol. Mas, para provar a teoria, Einstein teria de recorrer a algo que se movesse autonomamente no espaço, fosse abundante e não possuísse quase nenhuma massa que oferecesse resistência à gravidade e seguisse a tal curvatura do espaço-tempo de uma forma imediatamente observável e calculável. E aí concluiu que o candidato perfeito seria a luz, como por exemplo, a luz das estrelas, que segundo os seus cálculos veria a sua trajetória dobrada ao redor do sol em medidas incrivelmente pequenas.

O problema é que o sol brilha tanto que é impossível ver essa dobra da luz das estrelas que passam por ele (há milhares e milhares de estrelas no céu e a luz delas propaga-se até o planeta terra numa medida astronómica que se chama “ano-luz”). Só seria possível essa medição da curvatura da luz com um eclipse total do sol, de modo a que se pudesse fotografar a posição de uma estrela durante o eclipse (onde essa luz é visível) e comparar com a posição dessa mesma estrela antes do eclipse nos mapas de estrelas usados na astronomia. Supondo que a teoria de Einstein estivesse certa, o que se veria é que a luz da estrela curvaria à volta do sol, dando a impressão que a estrela está mais distante do sol do que na realidade está, uma vez que a luz se dobraria à volta do sol criando uma ilusão de óptica para um observador na terra. O mesmo acontece quando um jogador de futebol marca um livre e a bola descreve um “arco” por cima da barreira até à baliza (nem por isso o jogador mudou de posição, mas, é a bola que descreve uma curva para fora da posição inicial do jogador).

É aqui onde entra a ilha do Príncipe. Curiosamente, um dos lugares onde esse eclipse poderia ser visto com grande qualidade em 1919 era…em São Tomé e Príncipe, mais especificamente, na ilha do Príncipe, na roça Sundy. Artur Stanley Eddington (1882 – 1944), um físico inglês, chefe do observatório de Cambridge, respondeu ao pedido de Einstein para fotografar o eclipse, uma vez que este se viu impedido de se movimentar por causa da Primeira Guerra Mundial. Aquele astrónomo inglês dirigiu-se à ilha do Príncipe, na roça Sundy, para fotografar o eclipse que ocorreu no dia 29 de Maio de 1919. Eddington relatou mais tarde que chovia torrencialmente na inóspita ilha, que a floresta era densa e mal se conseguia passar. Relatou também que no Príncipe havia muitos mosquitos e animais perigosos, uma descrição exótica que revestiu a sua tarefa de grande espírito de aventura, fascínio pela ciência e romantismo, num período histórico de terror e destruição por causa da Primeira Guerra Mundial.

Um inglês que arriscava a sua própria vida ao ir de barco para uma recôndita e pouco conhecida ilha africana no mundo da ciência, então colónia de Portugal, para salvar o trabalho científico de um alemão, em teoria um inimigo segundo a posição da Inglaterra perante a Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial, era uma história tão bela e sedutora que parecia retirada de um livro. A tarefa de fotografar as estrelas durante o eclipse se afiguraria difícil em plena época de chuva, e mesmo que tal acontecesse, a probabilidade de conseguir uma boa fotografia era reduzida, aumentando o romantismo da história. Mas, a tarefa foi realizada e com sucesso. A ser verdade, seria a primeira prova oficial da teoria da Relatividade, após Wiliam Wallace Campbell em 1918, depois de uma observação feita no Observatório de Lick na Califórnia, Estados Unidos da América, durante um eclipse solar, ter posto em causa a teoria de Einstein. Mas, os dados recolhidos por Eddington na ilha do Príncipe revelariam mais tarde que…Einstein estava certo. O cientista alemão se tornaria numa celebridade da noite para o dia.

É essa a apaixonante relação entre uma das maiores teorias da ciência e a ilha do Príncipe. É uma teoria que abriu caminho para a era dos satélites (e por isso, dos telemóveis e outros aparelhos), do GPS, da compreensão do Big Bang (o evento que segundo os cientistas terá dado origem ao universo), dos buracos negros no espaço (lugares cuja gravidade é tão intensa que nem a luz os escapa), viagens no tempo (a teoria também refere as condições ideais para isso acontecer, embora não se tenha ainda certeza da veracidade dessas condições), que reescreveu a lei da gravidade de Isaac Newton que sobreviveu por mais de dois séculos, entre outros feitos.

A roça Sundy na ilha do Príncipe faz hoje parte do projeto turístico de uma empresa chamada HBD, que pretende construir hotéis em harmonia com a natureza. O projeto é reconhecido nacionalmente como um bom investimento para a ilha. Apesar de se tratar da concessão administrativa de uma parte do território do Príncipe a uma empresa privada, a HBD tem-se esforçado por honrar e divulgar o feito científico ocorrido na ilha, chegando inclusive a alocar essa tarefa a uma organização sem fins lucrativos que possui a missão de sensibilizar a população local para a necessidade da proteção do ecossistema do Príncipe, bem como, o desenvolvimento de projetos de preservação das espécies mais ameaçadas, mas, também, a investigação e a divulgação científica. Essa organização chama-se Príncipe Trust. A prova da preocupação da Príncipe Trust com a literacia científica dos santomenses é exatamente a participação da ilha do Príncipe no projeto Skylight – a Global Science Opera, que contou com a colaboração local daquela organização.

Trata-se de um projeto oficial da UNESCO, que surgiu na sequência da 68ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, que decorreu no dia 20 de Dezembro de 2013, e declarou 2015 o “ano internacional da luz”. O tema da participação da ilha do Príncipe neste evento de carácter internacional, que ocorreu no dia 3 de Outubro de 2015 no Centro Cultural do Príncipe, foi precisamente a comprovação da teoria da Relatividade Geral naquela mesma ilha, evento histórico que foi relatado de forma criativa por um grupo de alunos do 10º e 11º anos da Escola Secundária do Príncipe. Digno de registo é que o Príncipe foi convidado a participar neste projeto enquanto membro da Galileo Teacher Training Program.  

Credito Photo:Estrela Matilde

Observação astronómica realizada na Ilha Príncipe -Photo: Estrela Matilde

Esperemos que este tipo de iniciativas se prolifere pela ilha do Príncipe com a prestigiosa ajuda da STP Trust e de outras instituições, inclusive estatais, mas também, se prolifere pela ilha de São Tomé, e evolua para patamares ainda mais grandiosos como eventualmente a construção de um museu da ciência que valorize a comprovação da teoria da Relatividade Geral na ilha do Príncipe, bem como, a ciência no seu todo, já de uma forma permanente. Isto poderia incluir o país em vários roteiros turísticos internacionais, e inclusive atrair cientistas, público extremamente importante para o reconhecimento internacional do país. Por outro lado, esse contínuo chamamento da roça Sundy para o palco científico pode produzir um estímulo nos jovens nacionais, de modo a que se apaixonem também pela ciência, contribuam para o progresso da Humanidade e elevem o nome de São Tomé e Príncipe.

Devido ao fato de a própria teoria da Relatividade Geral depender da astronomia ou astrofísica (observação e estudo dos corpos celestes no “céu”), o Governo de São Tomé e Príncipe possui legitimidade histórica para apelar à comunidade científica internacional de modo a apoiar a construção de um observatório astronómico de pequena dimensão naquela região, como homenagem a um dos maiores feitos da mente humana, protagonizado por Albert Einstein. Isto é importante, embora Príncipe não tenha sido efetivamente o único lugar onde a observação em 1919 foi feita.

Por exemplo, a mesma foi feita no Brasil, na região do Sobral. Mas, isso não retira mérito àquela ilha por ter sido um dos primeiros lugares onde essa teoria foi comprovada, sendo que hoje o território brasileiro é mundialmente conhecido como parte integrante da história que circunda a teoria da Relatividade Geral, e menos aclamada é a ilha do Príncipe. É altura do Estado santomense e os seus cidadãos rebuscarem a História e as potencialidades de São Tomé e Príncipe e as tornarem um motivo de orgulho nacional. O leitor já possui uma história para reclamar o prestígio e potencialidade de São Tomé e Príncipe.

A ciência e tecnologia são o passado, o presente e o futuro da inovação. Adira ao movimento “valorização da ciência e tecnologia” e um dia, quiçá, poderá haver um artigo sobre si.

Denilson Paulino

Bibliografia:

GOLDSMITH, Mike – “Albert Einstein e o seu universo insuflável”, Publicações Europa – América, 2001

Webgrafia:
http://duploinsular.info

http://www.astro.caltech.edu

http://www.instituto-camoes.pt

http://duploinsular.info/

http://www.light2015.org/

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