O escritor são-tomense, José Dias Cardoso lançou, em São Tomé e Príncipe, a sua obra “Ellyzé – Autópsia da Alma”, marcada por profundas reflexões sobre os laços do amor paternal, baseada numa tragédia vivida numa família separada pela emigração.
Após vários anos ausente do país em busca de conhecimento e formação, o autor regressou ao país, trazendo uma obra literária inspirada numa tragédia familiar, vivida num contexto de separação provocada pela emigração da filha.
“A obra é o relato de um momento de tempestade, de uma tragédia no seio familiar”, explicou José Dias Cardoso.
“O protagonista perde a filha de 26 anos, numa altura em que a família se encontrava dividida entre França, onde o pai trabalhava e residia e a Inglaterra, onde a filha estudava. A notícia trágica chega numa noite, anunciando o seu falecimento”, contou o autor.
Segundo o escritor, a narrativa centra-se na recusa do pai em aceitar a perda. Movido pela forte ligação com a primogénita, o personagem principal entra num processo de negação da morte, procurando dar à filha uma segunda oportunidade de existência.
“O pai não encara a morte como algo natural, mas como um ponto de partida para não deixar morrer a filha. É assim que surge a Ellyzé”, explicou.
A obra é marcada por uma escrita carregada de simbolismo e metáforas, conduzindo o leitor a múltiplos momentos de reflexão.
Para além do drama familiar, o livro aborda temas sociais ligados à realidade são-tomense, como a dor da separação, o êxodo dos jovens formados e as consequências da emigração.
Para a professora Helena Afonso, Ellyzé – Autópsia da Alma é uma homenagem à terra natal do autor e aos desafios enfrentados pelas famílias separadas pela diáspora.
“[A obra aborda] a angústia do país adiado, a dor provocada pelo êxodo dos jovens formados e a problemática da emigração, tudo isso através de uma escrita poderosa, empolgante, emocional e amadurecida. Em certos momentos é nostálgica, mas também anunciadora de esperança, penetrando o mais fundo da alma”, afirmou.
A cerimónia do lançamento aconteceu no Instituto Guimarães Rosa, e reuniu representantes, familiares, amigos, escritores, leitores e membros da comunidade académica.
A diretora do instituto, Leila Quaresma, aproveitou a ocasião para sublinhar o papel da sua instituição na promoção da literatura nacional e no fortalecimento da cultura são-tomense.
“Temos a missão de apoiar a cultura são-tomense, incentivando ações literárias como esta, criando um espaço de diálogo e aprendizagem que aproxime as comunidades e os saberes“, disse.
“A literatura é essencial para o desenvolvimento da sociedade, pois amplia horizontes, estimula o pensamento crítico e conecta as pessoas por meio de ideias e emoções”, concluiu a diretora do Instituto Guimarães Rosa.
Dias Cardoso nasceu em 1963, na Ilha de São Tomé. Iniciou a vida profissional aos 18 anos como professor do ensino primário, interrompendo a atividade em 1984 para cumprir o serviço militar obrigatório.
Ao longo do seu percurso, destacou-se em áreas como Educação, Jornalismo, Administração Pública e Ativismo Cívico, tendo sido repórter da Rádio Nacional no distrito de Mé-Zóchi e participado no processo de democratização do país, nomeadamente como secretário de uma comissão eleitoral distrital, além de integrar serviços do Estado ligados à segurança e migração.
Paralelamente, investiu na formação contínua em São Tomé e Príncipe e no estrangeiro, incluindo formação profissional em Aljustrel, Portugal, em 1997.
Atualmente, é colaborador regular do jornal digital Téla Nón. No plano literário, foi distinguido em 2004 com menção honrosa no prémio “Escrever em Português” e venceu o primeiro prémio em duas edições consecutivas, consolidando a sua ligação à escrita.
