Centenas de pessoas prestaram hoje o último adeus à jornalista e poetisa são-tomense Conceição Lima que morreu na sexta-feira, e é considerada uma das referências da cultura e literatura do arquipélago, com obras traduzidas em pelo menos onze línguas.
“A tua partida é luto, mas o teu legado é festa, a chama viva de uma voz que nunca se consumirá. Estavas cansada, muito cansada, mas agora sabemos que terás finalmente paz”, declarou Celiza de Deus Lima, irmã da malograda.
O corpo de Conceição Lima foi enterrado no Cemitério do Alto São João, na capital são-tomense, depois do cortejo fúnebre que passou por várias localidades, e com pequenas paragens na sede da União Nacional dos Escritores e Artistas Santomenses (Uneas), do qual foi membro fundador, e na Rádio Nacional e a Televisão Santomense (TVS), onde trabalhou.
“A sua partida deixa-nos em silêncio, mas também nos convoca à gratidão e ao reconhecimento por tudo que nos legou”, declarou o presidente da Uneas, o escritor Albertino Bragança.
“Conceição lima foi ao longo da sua trajetória uma voz firme e sensível, que soube transformar a poetisa em instrumento de memória, justiça e identidade. Através dos seus versos, denunciou as feridas da nossa história, exaltou a beleza da nossa terra e afirmou perante o mundo a dignidade do povo são-tomense”, acrescentou Albertino Bragança.
Nos elogios fúnebres, não constaram intervenções de representantes do Estado, segundo os mais próximos, porque a Conceição Lima assim o desejou ainda em vida.
No entanto, o ex-presidente da Assembleia Nacional, Delfim Neves foi um dos três intervenientes no ato, na qualidade de amigo, e quem a Conceição Lima “autorizou” a discursar nesta qualidade.
“Ao longo da vida, Conceição Deus Lima não pertenceu apenas à literatura, ao jornalismo e a cultura Nacional. Ela pertenceu à consciência crítica da nossa nação. Foi uma voz livre num mundo tantas vezes dominado pelo silêncio, pelo medo e pela conveniência”, declarou Delfim Neves.
“Enquanto jornalista, exerceu a sua profissão com ética, inteligência e rigor. Enquanto poetisa, transformou emoções em eternidade, enquanto escritora, ajudou-nos a compreender melhor a nossa identidade, a nossas feridas ainda por sarar, os nossos sonhos e as nossas contradições enquanto povo”, acrescentou.
Delfim Neves sublinhou ainda que, enquanto embaixadora da cultura são-tomense, Conceição Lima levou o nome do São Tomé e Príncipe “para lá das fronteiras de São Tomé e Príncipe” e “era tratada com merecida dignidade, contrariamente ao que acontecera no seu solo pátrio, onde era muitas vezes ignorada, distratada, marginalizada e perseguida em pleno exercido das suas funções pelas próprias autoridades”, mas ainda assim “manteve-se firme na preservação das suas convicções e do seu caráter”.
Acrescentou ainda que quem teve o privilégio de conviver com a Conceição Lima testemunhou “uma mulher profundamente humana, amiga verdadeira dos seus amigos, frontal nas convicções, incapaz de fingimento, uma estudiosa incansável, investigadora apaixonada pelo conhecimento, sensível perante a dor humana e muito solidária nos momentos difíceis”.
O Governo são-tomense declarou três dias de luto nacional pela morte de Conceição Lima, que termina hoje à meia-noite.
A jornalista e poetisa são-tomense Conceição Deus Lima morreu, na sexta-feira, em São Tomé, aos 64 anos.
Conceição Lima é o nome mais traduzido da literatura são-tomense, com livros e poemas em alemão, árabe, espanhol, checo, francês, galego, italiano, inglês, shona, servo-croata e turco.
A poetisa foi membro-fundadora da União Nacional dos Escritores e Artistas São-tomenses (UNEAS) e, em 2021, foi nomeada coordenadora nacional, para São Tomé e Príncipe, do Movimento Poético Mundial.
Durante a celebração do dia da mulher são-tomense, em 19 de setembro do ano passado, Conceição de Deus Lima foi distinguida pelo Governo são-tomense como embaixadora da Cultura de São Tomé e Príncipe em reconhecimento pelo papel na valorização e promoção da identidade cultural do país no plano internacional.
Maria da Conceição Costa de Deus Lima nasceu no sul da ilha de São Tomé, em Santana, onde cresceu e fez os estudos primários e secundários, e estudou jornalismo em Portugal.
Em São Tomé e Príncipe trabalhou e exerceu cargos de direção na Rádio, Televisão e na imprensa e depois da abertura multipartidária no arquipélago, fundou, em 1993, o já extinto semanário independente O País Hoje, de que foi diretora.
Era licenciada em Estudos Afro-Portugueses e Brasileiros pelo King’s College de Londres e mestre em Estudos Africanos, com especialização em Governos e Políticas em África, pela School of Oriental and African Studies (SOAS), de Londres, onde residiu e trabalhou como jornalista e produtora dos serviços de Língua Portuguesa da BBC.
Tem poemas dispersos em jornais, revistas e antologias de vários países.
“O Útero da Casa” (2004) foi o primeiro de vários livros, o último dos quais, “Quando os cães deixaram de falar e outras fábulas universais”, foi lançado em 2025.
