“Um bom actor de tchiloli não é reconhecido pelo seu talento”

Tchiloli é uma manifestação cultural que não teve a sua origem em S.Tomé e Príncipe

Cultura -
Tchiloli

© Kalú Mendes, Fotografia do Documentário Tchiloli: Identidade de um Povo

Em São Tomé e Príncipe existem dois teatros populares do ciclo das histórias de Carlos Magno, nomeadamente A Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carloto Magno, em São Tomé, e o Auto de Floripes, no Príncipe, apresentado tradicionalmente em 15 de Agosto, Dia de São Lourenço. Ambos os teatros são exemplos emblemáticos da crioulização cultural e do teatro sincrético.

São Tomé e Príncipe constitui um centro de congregação de vários povos. Como resultado desta mistura, temos a assimilação de várias tradições, costumes e culturas trazidas essencialmente pelas pessoas que vieram trabalhar nas ilhas a título de trabalho contratado.

Assim sendo, São Tomé e Príncipe apresenta, no panorama histórico-cultural, um conjunto de manifestações que consideramos ser o nosso património. Deste modo temos a Puíta,Stlêva, Socopé, Bulauê, Danço-congo, Ússua, Quiná, D’jambi, Deixa, Vindes Menino, Auto de Floripes e o Tchiloli ou a tragédia do Marquês de Mântua e do imperador Carlos Magno.

Existem duas versões, controversas que diz respeito ao autor da obra supracitada. A primeira, diz que a obra é francesa, passou por Espanha chegando posteriormente a Portugal. Por outro lado, temos a versão que diz que a obra terá sido escrita por Baltazar Dias, poeta cego madeirense e que foram os portugueses que a trouxeram nas suas naus para S.Tomé.

Tchiloli

Tchiloli, nome crioulo da obra, é uma peça dramática que retrata a tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carloto Magno.

Além destas versões, existe uma, relativamente desconhecida, que postula que a obra terá vindo do Brasil para o continente africano.

Esta obra faz parte do ciclo da história de Carlos Magno. Baltazar Dias fê-la a partir das canções de gesta, isto é, da obra medieval que retratava as façanhas de Carlos Magno.

Esta obra representada por trupes de teatro convidados por mestres açucareiros do século XVI é de inspiração religiosa, e está ligada à paixão de Cristo e ao imperador Carlos Magno.

Tchiloli, nome crioulo da obra, é uma peça dramática que retrata a tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carloto Magno.

Conta-nos a história de uma das personagens mais emblemáticas do contexto europeu, o Imperador Carlos Magno, que tinha como único herdeiro o seu filho D. Carloto.

Tchiloli

A Rainha e a sua Dama 2. Photo: Ines Gonsalves

Trata-se da encenarização de uma peça de teatro portuguesa, Auto de Floripes, que foi importada pelos colonizadores para o seu divertimento. No passado esta peça foi assimilada pelos escravos e desde então não deixaram de a representar, acompanhando o espectáculo de todos os acessórios e trajes associados a este drama europeu.

A história representada é a de Carlos Magno, obrigado a condenar o próprio filho à pena de morte por ter assassinado  o duque de Mântua. Diz-se que na peça, Carlos Magno representa o rei de Portugal, um rei justo, mas distante.

As autoridades coloniais que dirigiam o país, e a família da vítima (o duque de Mântua) representava  a população São-tomense.

O interesse deste evento é entre outros conferido pelo anacronismo latente : os acessórios utilizados foram recuperados ao longo dos séculos ou fabricados a partir da imaginação dos actores, o que nos permite ver durante a representação espadas, capas de veludo, trajes de reis, ao pé de máquinas de escrever, advogados e, hoje em dia, telemóveis.

Da mesma maneira, ao texto original, escrito em português antigo, acrescentaram-se ao longo do tempo partes reescritas em português moderno. Estas características fazem deste espectáculo algo único e muito particular, entre modernismo e tradição, pragmatismo e espiritualidade, vida e morte.

Tchiloli

Em cena, Photo: Ines Gonsalves

Podemos dizer que o Tchiloli de São Tomé é uma marca de aculturação. A aculturação é um fenómeno de «reinterpretação»: quando duas culturas totalmente diferentes, uma dominante (o colonizador) e uma dominada (ou receptor, a colónia) vêm ao encontro uma da outra, efectua-se da parte da cultura dominada uma selecção por entre as características da cultura dominante.

Ou seja, neste caso, São Tomé integrou e reinterpretou a representação desta peça de teatro europeia trazida pelos portugueses que era estrangeira à sua cultura e adaptou-a às suas necessidades.

Um bom actor de tchiloli não é reconhecido pelo seu talento. Diz-se que, se representou particularmente bem, é porque estava “possuído” pelo espírito de um antepassado que já tinha representado este papel. Isto pode ser explicado pela necessidade, durante a colonização, dos São-tomenses de praticar o seu culto aos mortos, proibido pelos portugueses colonizadores.

Conseguiram, com o Tchiloli, desviar uma tradição europeia para o seu proveito. Trata-se portanto de uma re-interpretação num processo de aculturação.

Segundo a antropóloga Françoise Gründ, especialista do Tchiloli, existem hoje em dia nove grupos de Tchiloli, entre os quais três são muito activos: os grupos Formiguinha da Boa Morte, Tragédia Florentina de Caixão Grande e o de Riboque.

É  um argumento forte no turismo, porque o seu carácter único atrai a curiosidade do Ocidente. Dia 27 de Maio de 2000, o grupo de tchiloli Formiguinha de Boa morte veio a França, onde várias representações tiveram lugar. O tchiloli tem efectivamente muito sucesso, nacional e internacionalmente.

O tchiloli é portanto um ritual que ao longo dos anos, foi primeiro uma marca de desobediência ao colono, quando os escravos o representavam para poderem executar o seu culto aos mortos de maneira implícita, antes de se tornar uma tradição que perdurou no país, transformando-se em parte integrante da cultura São-tomense e enfim de ser uma das principais características do país e de ser um factor de turismo.

Fontes: stomepatrimonio.st  lingalog.net   marfilmes.com  Tchiloli.com  buala.org

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