Rádio Somos Todos Primos

A vida das agricultoras de Claudino Faro: um retrato de “vozes ocultas” da sociedade São-Tomense!

Adilson-Barbosa-Neto

Adilson Barbosa A. Neto (ABAN).

Com efeito, os depoimentos em causa despertaram a atenção para os desafios que se impõem à vida nas comunidades rurais em São Tomé e Príncipe, a partir do exercício lógico-racional numa perspetiva crítica das teorias de desenvolvimento sustentável, aplicado à São Tomé e Príncipe (STP), principalmente, nas comunidades rurais. (O leitor poderá assistir o vídeo.

Para o efeito, partiu-se da seguinte Hipótese (H1): Em STP não houve desenvolvimento do setor agrícola nos últimos 45 anos de independência?

Para a confirmação ou não da H1., assevera-se através dos seguintes depoimentos durante as atividades e, posteriormente, confirmado pelas perspetivas de autores sobre o processo de desenvolvimento,  A vida de uma agricultura é uma vida difícil… não é para qualquer uma… a nível da agricultura temos rendimento, mas o que nos falta é o apoio técnico do nosso estado são-tomense… As mulheres rurais não têm sustentabilidade … as mulheres rurais não têm o valor que merecem… ou pertencem…esse é o único erro do Estado São-tomense… (Maria de Fátima, Presidente da Associação dos Agricultores).

Questionada sobre as dificuldades das mulheres agricultoras de Claudino Faro, Maria de Fátima é categórica ao afirmar que, o escoamento dos produtos, devidos as más condições das estradas…., tem causado problemas de coluna…colunas destratadas….  Apela-se à atenção! Mas, não uma atenção mediática, nas palestras e televisões.  Tenho participado diretamente em diversos projetos, mas os financiamentos destinados à agricultura não existem, ou seja, são destinados apenas às mulheres-de-mãos-finas (mulher com um nível académico) …e por termos mãos-de-machins (mulheres rurais), sacos e baldes na cabeça… não temos apoios nenhuns…. esta é a minha tristeza para com a República de São Tomé e Príncipe, desabafa Sra. Fátima.

Dimitila Cruz assevera que, a vida em Claudino Faro é difícil, por mais que se batalhe, trabalhe não há apoios…por mais que haja produção, tem-se verificado ao longo dos anos, sérios problemas com o escoamento dos produtos agrícolas…. Não há vias de acesso em condições…  não há transporte suficiente para escoamento dos produtos… tem havido sacrifícios para o aumento da produção, mas sem sucesso no que concerne ao lucro da mesma produção. 

Reforça ainda que,  é preciso que o governo tenha atenção para com as comunidades rurais (roças) uma vez que os trabalhos são difíceis… e torna-se desanimador.

A opinião de Dimitila Cruz vai ao encontro das afirmações da Presidente da Associação, alertando o Governo que, em Claudino Faro, Bernaldo Faro, Anselmo Andrade, Mato Cana, são comunidades que abastecem a capital com os produtos agrícolas de qualidade…”.

Ambos os depoimentos acabam por confirmar a H1. , quando se efetua uma correlação com as teorias de desenvolvimento, a partir das seguintes perspetivas:

  1. Ao se definir o desenvolvimento a partir do conceito de liberdade na perspetiva do filósofo Amartya Sen, os benefícios do crescimento servem necessariamente à ampliação das capacidades humanas, entidades como o conjunto de coisas que as pessoas podem ser, ou fazer, na vida. Por exemplo, as mais elementares: ter uma vida longa e saudável, ser instruída, ter acesso aos recursos necessários a um nível de vida digno e ser capaz de participar na vida da comunidade (Martins, 2009).
  1. Para Prata (2015), o aumento constante do nível de produção são sinais evidentes de crescimento económico, mas para se configurarem em desenvolvimento económico, esses incrementos precisam chegar a toda a comunidade analisada, via melhorias na saúde, renda, educação, entre outros.
  2. Oliveira (2002) sustenta que o desenvolvimento económico deve resultar do crescimento económico e necessariamente deverá estar acompanhado de melhorias visíveis na qualidade de vida da população.

De acordo com os depoimentos, e se se analisar a influência do estudo no processo de desenvolvimento, verifica-se que, apesar do aumento de produção nas comunidades rurais nos últimos 45 anos de independência, essas mesmas carecem ainda de um mínimo para o bem-estar social (Welfare State), vide a este respeito:

MATRIZ LÓGICO DE DESENVOLVIMENTO EM STP[1]
DESIGNAÇÃO  SIM NÂO
Aumento da produção agrícola; X  
Vias de acesso ao escoamento dos produtos;   X
Apoios técnicos;   X
Acesso a um sistema de saúde de qualidade;   X
Financiamentos para o setor agrícola;   X
Acesso à educação universal e de qualidade[2]   X
Acesso à tecnologia e Inovação   X

Conclui-se este exercício, com as questões para a reflexão:

  1. Qual foi ou é o desígnio da Independência Nacional?
  2. Para que serve o Estado de Direito Democrático que tanto se fala em São Tomé e Príncipe?
  3. Quais foram os apoios ao setor agrícola dos sucessivos governos locais, regionais e/ou centrais?
  4. Será a agricultura um setor estratégico e prioritário para São Tomé e Príncipe?
  5. Quais têm sido as vantagens das sucessivas eleições para a alternância do poder em São Tomé e Príncipe? Para agravar as desigualdades sociais? Para fazer crescer o dinheiro das mulheres-de-mãos-finas face às de mãos-de-machins, baldes e outros? Ficando estas últimas, com dores sucessivas de colunas e problemas de saúde, devido ao fraco investimento no setor agrícola e, consequentemente, aos meios de acesso para o escoamento de produtos?

San Tomé Plodosu fé lançon dá iném miná dê!

 Adilson Barbosa A. Neto (ABAN).


[1] Baseado estritamente nos depoimentos;

[2] Não está indexada ao processo de alfabetização definida pela UNESCO e que é interpretada literalmente em São Tomé e Príncipe. Pois, um individuo alfabetizado, hoje, não é àquele que sabe, apenas ler e escrever, mas sim aquele que conclui o 12.º ano de escolaridade domina as ferramentas informáticas e consegue ter um plano para o seu empoderamento, social, económico e cultural, integrado ao sistema global (formação ao longo da vida).

Exit mobile version