Seis são-tomenses distinguidos entre as 100 personalidades mais influentes da lusofonia em 2025

A curadoria da lista é realizada pelo coletivo de jornalistas e produtores de conteúdo das diferentes plataformas de comunicação parceiras, presentes em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Portugal.

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Pelo menos seis são-tomenses foram distinguidos entre as 100 personalidades mais influentes da lusofonia 2025, na quinta edição da iniciativa promovida pela Bantumen para homenagear e celebrar a multiplicidade, excelência e potência de pessoas negras que partilham o português como língua oficial.

A iniciativa, criada em 2021 pela BANTUMEN, é hoje uma referência no reconhecimento da excelência afrodescendente nos países de língua portuguesa. A curadoria desta edição contou com a colaboração editorial da RSTP, garantindo a presença de nomes que espelham a diversidade e vitalidade cultural são-tomense.

Da lista constam figuras de várias áreas, nomeadamente o empreendedorismo, humor, desporto, música, teatro/dramaturgia, sendo alguns com a dupla nacionalidade.

Os são-tomenses nomeados foram, Azomé Pinto, Dério Quinto, Joel Silva, N´Gunu Tiny, Nuno Espírito Santo e Valete.

Azomé Pinto é um comediante, ator e criador de conteúdo são-tomense, reconhecido pela sua autenticidade, humor identitário e capacidade de transformar o quotidiano dos PALOP em narrativas digitais. Nascido em São Tomé e Príncipe e atualmente residente no norte de Portugal, tornou-se uma das vozes da nova geração de entertainers da diáspora africana lusófona.

Bailarino profissional de danças tradicionais santomenses, Kuduro, Afro House e outros estilos, encontrou na comédia o seu território de plenitude. A ascensão nas redes sociais consolidou-se pela forma espontânea e culturalmente enraizada com que retrata situações do dia a dia, com foco especial na identidade santomense. No Instagram ultrapassa os 53 mil seguidores, e no TikTok mantém uma comunidade ativa, que acompanha diariamente os seus vídeos humorísticos.

Os seus conteúdos são dedicados sobretudo à juventude santomense, que considera frequentemente invisibilizada no panorama institucional. Através do humor, procura criar pertença, orgulho cultural e consciência coletiva. Nos eventos culturais da diáspora, a sua presença é recorrentemente solicitada, tornando-o num dos principais animadores da comunidade santomense em Portugal.

Inspirado pela célebre frase do chef santomense João Carlos Silva, “Façam o favor de ser felizes”, Azomé Pinto transformou o lema na força motriz do seu trabalho. A sua comédia é, simultaneamente, celebração cultural, experiência quotidiana e ponte afetiva entre São Tomé e a diáspora.

Dério da Silva Costa, conhecido artisticamente como Dério Quinto, é ator, performer, dramaturgo e educador santomense. Desde 2013, quando iniciou o percurso artístico na Associação Cultural Surpresa da Madrugada, tem desenvolvido uma trajetória marcada pela criação autoral, pela pedagogia teatral e pelo ativismo social e ambiental. A sua prática integra tradições locais e narrativas contemporâneas, promovendo o diálogo intercultural, a inclusão e a sustentabilidade.

Formado sob a orientação de mestres como João de Mello Alvim (Portugal), Humberto Pedrancini (Brasil) e Laurindo Vicente (São Tomé e Príncipe), consolidou uma abordagem artística assente no rigor técnico, na ancestralidade e na valorização das expressões orais santomenses. Trabalhou ainda em residência com Miguel Hurst, durante a Bienal de Arte e Cultura de São Tomé, onde desenvolveu a performance Oráculo de Ifá, que articula espiritualidade e ecologia.

Entre as suas criações, sobressaem A Minha Mulher Que Me Perdoe (2018), uma peça que explora com sensibilidade as relações humanas e os conflitos emocionais; Cinzas de Falcão (2021), desenvolvida em parceria com Clinton Lima, que aborda a memória, a perda e a reconstrução cultural; Mionga (2022), inspirada nas identidades insulares e nas heranças ancestrais; e Tchiloli: Uma Tragédia Atual (2023), uma releitura contemporânea do auto tradicional santomense, apresentada em São Tomé, Portugal e Moçambique. No cinema, participou em Ilha dos Cães (2017), de Jorge António, e em Chuva de Gravana, de Ângelo Torres.

Entre 2024 e 2025, Dério Quinto distinguiu-se pela direção artística de novos projetos teatrais, pela coordenação do Teatro na Sexta, uma agenda quinzenal de apresentações no espaço CACAU, que se tornou um ponto de encontro para artistas e público local, e pela fundação da Utonga Unipessoal Lda., produtora cultural dedicada ao desenvolvimento de projetos independentes e acessíveis. O artista também participou ativamente em ações de formação comunitária, ministrando oficinas de teatro para atores e não atores, com o objetivo de democratizar o acesso à criação artística e fortalecer o tecido cultural são-tomense.

Durante o mesmo período, reforçou o seu papel técnico e formativo como técnico de luz e coordenador do Xê-Festival de Dança Contemporânea de São Tomé, contribuindo para a profissionalização da produção artística no arquipélago. O seu envolvimento em projetos de performance e educação artística consolidou-o como um agente de ligação entre arte, pedagogia e cidadania cultural.

Ativista social e ambiental, Dério Quinto é uma das figuras centrais da nova geração artística de São Tomé e Príncipe. A sua obra, a performance, a pedagogia e a militância, projetam o arquipélago no panorama cultural da lusofonia.

Joel Silva é um dos rostos do empreendedorismo são-tomense contemporâneo. Licenciado em Direito, é Co-fundador e CEO da STP 24, e lidera uma das iniciativas tecnológicas mais ambiciosas de São Tomé e Príncipe, dedicada a modernizar a mobilidade urbana através de soluções de transporte acessíveis, seguras e tecnologicamente avançadas.

Em menos de dois anos, transformou a STP 24 numa referência nacional, posicionando-a como uma plataforma de transporte que combina eficiência, modernidade e inclusão.

Em maio de 2025, apresentou o projeto STP 24 Mini-Car Táxi, iniciativa que marca o ponto alto da sua atuação recente. Este novo conceito introduz no país uma frota inicial de veículos compactos de quatro rodas, “mini-cars”, equipados com tecnologia moderna e suportados por uma aplicação móvel que permite registo, chamadas de viagem e pagamentos digitais. Trata-se de uma inovação no mercado local, desenhada para melhorar a circulação urbana e responder às lacunas no setor dos transportes públicos.

Com uma visão pragmática e orientada para impacto, Joel Silva representa o espírito empreendedor dos novos criadores africanos comprometidos com a construção de soluções locais para desafios estruturais.

N’Gunu Tiny é um empresário, investidor e filantropo angolano, reconhecido pela sua liderança no setor financeiro e pelo impacto das suas iniciativas de inclusão económica em África. Nascido em Angola, filho de pais são-tomenses, é formado em Direito no Reino Unido e Visiting Scholar da Harvard Law School, com especializações em Negócios Internacionais, Petróleo e Gás, Mineração e Direito Bancário.

É fundador e CEO do The Emerald Group, um grupo de investimento sediado no Dubai e estruturado em três áreas, Emerald Capital, dedicada a investimentos financeiros; Emerald Media, que detém títulos como a Forbes Portugal e a Forbes África Lusófona; e Emerald Real Estate, com foco no setor imobiliário e hoteleiro. A sua atuação reflete uma visão estratégica centrada no fortalecimento da economia africana através da inovação e da sustentabilidade.

Em 2024, foi eleito Presidente do Conselho de Estratégia e Sustentabilidade do Banco Millennium Atlântico (BMA), cargo que lhe confere um papel determinante na integração de práticas ESG (Environmental, Social and Governance) no sistema financeiro angolano e foi distinguido pela Reputation Poll International (RPI) como um dos 100 africanos com melhor reputação.

Ainda em 2024 lançou o Hotel Meliá Luanda, reforçando o investimento no turismo angolano, e com o anúncio de novos projetos em São Tomé e Príncipe, que evidenciam o seu compromisso com o desenvolvimento regional. No mesmo ano, participou em fóruns financeiros internacionais em Portugal e no Médio Oriente, onde defendeu uma banca mais prudente, transparente e orientada para a sustentabilidade.

Defensor da educação e das artes, tem apoiado programas de formação e projetos culturais que promovem a inovação e a inclusão social.

Nuno Herlander Simões Espírito Santo, nascido a 25 de janeiro de 1974 em São Tomé e Príncipe, é um treinador de futebol reconhecido pelo seu percurso internacional nas principais ligas europeias e pela transição de guarda-redes para técnico. Criado em Portugal, construiu uma carreira marcada pela disciplina, liderança e capacidade de potenciar grupos em contextos competitivos.

Enquanto jogador, destacou-se como guarda-redes no FC Porto, Deportivo da Corunha e Vitória de Guimarães, acumulando palmarés que incluem a Liga dos Campeões e a Taça UEFA, ambas conquistadas ao serviço do FC Porto, além de quatro títulos nacionais. A experiência de balneário e o contacto com treinadores moldaram a sua visão metodológica e abriram caminho à transição para a carreira técnica.

Iniciou-se como treinador em 2012, no Rio Ave, conduzindo o clube às meias-finais da Taça de Portugal, antes de assumir o Valencia CF, onde garantiu a qualificação para a Liga dos Campeões. Regressou ao FC Porto como treinador principal em 2016/2017 e, logo depois, assumiu o comando técnico do Wolverhampton, onde conquistou promoção à Premier League e levou o clube até aos lugares europeus. Em 4 de julho de 2022, foi anunciado como treinador do Al-Ittihad, da Arábia Saudita, levando o clube a conquistar o título do Campeonato Saudita na temporada 2022–23, encerrando um jejum de 14 anos sem conquistas nacionais.

Em janeiro de 2024, foi distinguido pela Liga Portugal como “Talento que Marca o Mundo”, reconhecimento do seu impacto enquanto embaixador do futebol português. Em 2025 manteve a sua presença na Premier League, primeiro no Nottingham Forest, e posteriormente, em setembro de 2025, ao assumir o comando técnico do West Ham United.

É Doutor Honoris Causa em Desporto, título concedido pela Universidade de Wolverhampton, reconhecimento do trabalho desenvolvido ao serviço do clube durante as épocas 2017-2019.

Valete (Keidje Torres Lima) é rapper, escritor e formador, e uma das figuras mais reconhecidas da história do hip hop português. Nascido em 1981, filho de pais são-tomenses, cresceu entre Benfica, Odivelas, Amora e Damaia, territórios que moldaram a sua visão política e social. Iniciou o percurso musical em 1997, como membro do grupo Canal 115, antes de se afirmar como MC a solo e fundador da editora Horizontal Records.

Ao longo de mais de duas décadas de atividade, Valete construiu uma discografia de referência, com Educação Visual (2002) e Serviço Público (2006) a consolidarem a sua reputação enquanto letrista de intervenção. Em 2017 integrou o projeto Língua Franca, ao lado de Emicida, Rael e Capicua, reforçando a ponte entre o rap lusófono e as culturas urbanas africanas e brasileiras. Em 2023 regressou aos lançamentos com o EP Aperitivo, retomando a construção do álbum Em Movimento.

A par do percurso musical, Valete mantém uma relação com o pensamento crítico e com movimentos sociais. A sua juventude foi marcada pela ligação à Juventude Comunista Portuguesa, e ao longo dos anos tem participado em debates sobre cidadania, desigualdade e criatividade como ferramenta de transformação social.

Em 2024, iniciou um novo capítulo no seu percurso público ao anunciar a criação da Horizontal 360, uma escola não formal dedicada às artes e às competências criativas, desenvolvida em parceria com a Junta de Freguesia de Benfica. O projecto nasceu com a ambição de oferecer a jovens de diferentes contextos um espaço de contacto direto com profissionais reconhecidos e de aprendizagem prática em áreas como teatro, música, graffiti, escrita criativa, redes sociais, jornalismo, marketing digital e desporto de alta competição. Nomes como Nuno Markl, Gilmário Vemba, Gabriel o Pensador e Rui Unas foram apresentados como patronos e dinamizadores da iniciativa.

Em 2025, a Horizontal 360 abriu portas no Palácio Baldaya, funcionando como uma plataforma comunitária orientada para o pensamento crítico, a criatividade e a autonomia. O projecto estabeleceu-se como complemento ao ensino tradicional, aproximando os jovens de ecossistemas culturais e profissionais e proporcionando experiências formativas assentes na prática e no diálogo.

A edição 2025 da PowerList distingue personalidades de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe, com paridade de género exemplar, com 52% homens, 48% mulheres.

Em termos de áreas de atividade a nível global, a lista regista dominância feminina nas Ciências (86%) e Comunicação (100%), e pelo equilíbrio total em Cinema, Digital e Artes Plásticas, provando que a diversidade é a força da lusofonia.

Segundo a BANTUMEN, o objetivo da iniciativa é “dar visibilidade global a trajetórias que contribuem de forma significativa para o avanço cultural, social e económico das suas comunidades”.

A lista foi apresentada no sábado, 6, em Lisboa, durante uma gala que reuniu homenageados, artistas, académicos e representantes institucionais. A cerimónia será transmitida pela RTP África no dia 20 de dezembro, às 21h30 (hora de Lisboa).

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