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Contabilista são-tomense Zuleide Bexigas distinguida com medalha de 25 anos de carreira em Portugal

A contabilista são-tomense Zuleide Bexigas foi distinguida, com a medalha de 25 anos de carreira na área da Contabilidade, em Portugal, um reconhecimento que, considerou ser o resultado de um “processo natural”, mas que representa um marco importante na sua trajectória profissional, tendo defendido ainda a necessidade de se criar um sistema de contabilidade mais robusto em São Tomé e Príncipe, de forma a torná-lo mais justo, transparente e eficaz.

“Devo dizer que receber a medalha de 25 anos de carreira faz parte de um processo natural de estar inscrita na Ordem durante todo esse período. Mas, logicamente, para mim enche-me de orgulho, representando um marco na minha trajectória profissional. Importa ainda referir que a Ordem, representada pela sua bastonária e pelos membros da administração, tem conseguido, nos últimos tempos, um processo de modernização e de reforço institucional bastante significativo”, afirmou a contabilista em entrevista à RSTP.

Zuleide nasceu em São Tomé, mas emigrou “muito cedo” para Portugal, onde deu continuidade aos seus estudos, tendo concluído o 12.º ano no curso Técnico-Profissional de Contabilidade e Gestão de Empresas. A contabilista salientou que a escolha da área da contabilidade se deveu à convicção de que existiriam maiores oportunidades de empregabilidade.

“Como qualquer outro jovem estudante, era importante para mim começar a trabalhar o mais cedo possível na área, e senti que um curso com um carácter mais técnico facilitaria esse objectivo, tendo em conta o contexto da época. O objectivo era obter capacitação para o mercado de trabalho. Com essa formação e, graças também a uma excelente coordenadora do programa que tivemos no liceu, conseguimos um estágio”, referiu.

Após dar seguimento à área técnica, Zuleide prosseguiu os estudos e licenciou-se no ramo de Auditoria Financeira, no âmbito de um curso bietápico, sendo a primeira etapa o bacharelato em Contabilidade e Administração.

Zuleide destacou ainda as iniciativas que desenvolveu para aprofundar os seus conhecimentos e reforçar a sua capacitação para o mercado de trabalho, o que culminou com a inscrição na Ordem dos Contabilistas Certificados (OCC), um processo que considerou natural após a conclusão do curso e a intenção de exercer na área da contabilidade.

“Apesar das perspectivas promissoras de trabalho, enfrentei alguns desafios no início da minha carreira profissional em contabilidade. Infelizmente, naquela altura, existia muita discriminação racial e muitas empresas não aceitavam trabalhar com pessoas negras ou africanas. Recebi alguns convites para entrevistas, mas, quando chegava, as portas fechavam-se e surgiam sempre desculpas que não faziam qualquer sentido. Foi preciso muita persistência, sangue-frio e foco para continuar a insistir e a bater às portas”, explicou.

A profissional realçou igualmente a importância do sector da contabilidade para a sociedade, destacando a evolução da classe, que se tem reflectido na melhoria dos referenciais técnicos e no investimento em plataformas digitais. Sublinhou ainda que, “na sua génese”, os contabilistas se afirmam como figuras essenciais para o desenvolvimento de São Tomé e Príncipe, nomeadamente na gestão empresarial e na integridade do sistema económico e fiscal.

“Penso que é aqui que entra a forma como a contabilidade pode promover o desenvolvimento em São Tomé e Príncipe. Pessoalmente, não tenho tido contacto directo com a Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas e Auditores de São Tomé e Príncipe, mas tenho acompanhado e reconheço, com muito agrado, os esforços que a Ordem tem feito com o objectivo de firmar e desenvolver a actividade no país”, afirmou.

A contabilista apontou ainda a falta de estrutura existente em São Tomé e Príncipe, motivada pelo contexto económico e social, que dificulta a implementação de “um sistema planeado de contabilização e arrecadação de receitas”.

“Temos uma economia extremamente informal e, por isso, existe uma falta de estrutura que permita implementar um sistema planeado de contabilização e arrecadação de receitas. O caminho passa, em grande parte, por aí, mas é igualmente necessário considerar a necessidade de um sistema mais robusto, que tenha em conta todos os aspectos e especificidades da nossa sociedade e da nossa economia. É importante reconhecer que muitas pessoas não têm condições para suportar uma elevada carga fiscal, havendo diversos factores a considerar na definição de uma divisão justa do pagamento de impostos”, disse.

Zuleide defendeu a necessidade de “haver uma grande transparência, também ao nível do Governo e das entidades fiscais, relativamente à forma como é distribuída a receita nacional”.

A contabilista revelou igualmente que regressou a São Tomé e Príncipe após concluir os estudos, mas acabou por se ver impossibilitada de permanecer no país devido a condições desfavoráveis, tendo regressado à Europa. Acrescentou, no entanto, a sua intenção de contribuir para o desenvolvimento do sector da contabilidade no país.

“Acredito que é sempre positivo ter uma visão de fora para dentro, sem ignorar o contexto em que estamos inseridos, que é bastante diferente do contexto europeu. Sabemos que é necessária uma estrutura mais robusta do sistema de contabilidade em São Tomé e Príncipe, mas, tendo em conta as nossas especificidades, é preciso trabalhar em torno dessa realidade e criar um sistema justo, transparente e eficaz”, afirmou.

Mestre em International Business Management with Finances, com enfoque na diversificação de receitas, Zuleide destacou ainda a necessidade de explorar, em São Tomé e Príncipe, outras fontes de rendimento.

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