Faz hoje 16 anos da morte da escritora, nacionalista e poetisa Alda do Espírito Santo, uma das figuras emblemáticas da cultura de São Tomé e Príncipe e considerada “matriarca da nação são-tomense”, que, através da sua escrita singular, compôs a letra do hino nacional.
Nascida a 30 de abril de 1926, em São Tomé, Alda do Espírito Santo, que também exerceu a função de professora, foi uma das figuras mais importantes da luta pela independência do país, destacando-se pela poesia de resistência, na qual denunciava as injustiças do colonialismo e exaltava a identidade e a cultura são-tomense.
Após a independência de São Tomé e Príncipe, em 1975, continuou a servir o país, ocupando cargos importantes na vida política e cultural, tendo sido a primeira mulher presidente da Assembleia Nacional.
Autora de grandes poemas que se tornaram símbolos de esperança e de consciência nacional, foi também através da sua escrita que Alda do Espírito Santo compôs a letra do hino nacional, Independência Total, além de retratar, em muitos dos seus textos, temas ligados à realidade social e à cultura são-tomense.
Angolares 1
Canoa frágil, à beira da praia,
panos preso na cintura,
uma vela a flutuar…
Caleima, mar em fora
canoa flutuando por sobre as procelas das águas,
lá vai o barquinho da fome.
Rostos duros de angolares
na luta com o gandu
por sobre a procela das ondas
remando, remando
no mar dos tubarões
p’la fome de cada dia.
Lá longe, na praia,
na orla dos coqueiros
quissandas em fila,
abrigando cubatas,
izaquente cozido
em panela de barro.
Hoje, amanhã e todos os dias
espreita a canoa andante
por sobre a procela das águas.
A canoa é vida
a praia é extensa
areal, areal sem fim.
Nas canoas amarradas
aos coqueiros da praia.
O mar é vida.
P’ra além as terras do cacau
nada dizem ao angolar
“Terras tem seu dono”.
E o angolar na faina do mar,
tem a orla da praia
as cubatas de quissandas
as gibas pestilentas
mas não tem terras.
P’ra ele, a luta das ondas,
a luta com o gandu,
as canoas balouçando no mar
e a orla imensa da praia.
Alda do Espírito Santo faleceu a 9 de março de 2010, contudo, a sua memória permanece viva na história e na consciência coletiva de São Tomé e Príncipe.
A sua obra literária e o seu percurso político continuam a representar um importante testemunho da luta pela liberdade e pela afirmação da identidade nacional.
Recordar Alda do Espírito Santo é, assim, revisitar uma parte essencial da história do país e reconhecer o legado de uma mulher que ajudou a construir, com palavras e ação, a consciência e a dignidade de uma nação.
