A sequência de maus resultados da Seleção Nacional de São Tomé e Príncipe tem gerado fortes críticas por parte da população, que vê no desempenho da equipa o reflexo de problemas profundos no sistema desportivo do país.
Após mais uma campanha sem pontos nos jogos de apuramento para o Mundial, associado a desqualificação para a corrida ao CAN 2027 após a derrota por duas vezes diante da Etiópia, o descontentamento tornou-se evidente.
Adeptos, dirigentes e antigos praticantes defendem que a crise vai muito além das quatro linhas, apontando falhas na gestão, falta de organização e ausência de uma estratégia clara para o desenvolvimento do futebol nacional.
“As derrotas sucessivas estão a deixar toda a gente desiludida. A Seleção é o espelho do que se passa no nosso futebol”, afirmou um adepto.
Uma das principais críticas recai sobre a atuação dos dirigentes desportivos. Segundo várias opiniões recolhidas, tanto a Federação como os clubes têm falhado no seu papel de promover e organizar o futebol de forma eficiente.
“O que está a faltar é consciência dos dirigentes. Não é só a Federação, são também os dirigentes dos clubes. Não podem continuar a dar carta branca para destruir o futebol”, criticou outro interveniente.
“Em qualquer parte do mundo, quem manda no futebol são os clubes. Aqui, eles não têm força. Se houvesse união entre clubes e Federação, já estaríamos noutro nível”, disse.
Há quem considere que existe falta de consciência e compromisso por parte dos responsáveis, o que tem contribuído para o declínio da modalidade.
“A situação atual é triste. O futebol está a desaparecer aos poucos e ninguém assume responsabilidades”, lamenta um adepto, defendendo maior intervenção dos clubes nas decisões estruturais.
Para muitos, os clubes têm sido excessivamente dependentes da Federação, o que limita a sua autonomia e capacidade de desenvolvimento.
Outro ponto levantado é a falta de transparência nos processos internos, nomeadamente na aprovação de contas. Alguns intervenientes denunciam que não existe debate real, sendo as decisões tomadas de forma pouco participativa, o que fragiliza a confiança no sistema.
“A aprovação de contas é uma farsa. Não se discute nada. Trazem o pacote, levanta-se o cartão e fica tudo aprovado”, denunciou um dirigente ligado ao desporto.
“Não é normal uma equipa não conseguir chegar para um jogo por causa de transporte. Isso mostra que o futebol não está a ser levado a sério”, afirmou um adepto.
No plano desportivo, a escolha de jogadores tem sido outro tema de debate. Parte da população considera que os atletas que atuam no país estão a ser desvalorizados, enquanto se privilegia jogadores da diáspora. Para estes críticos, é fundamental investir mais na formação interna e criar uma base sólida de talentos locais.
“Hoje já não se valoriza o jogador interno. Faz-se campeonato, mas quase ninguém tem oportunidade na Seleção”, lamentou um antigo jogador.
“Os jogadores que vêm de fora têm praticamente o mesmo nível dos que estão cá. A diferença é que os nossos não têm oportunidades”, acrescentou.
Apesar do cenário negativo, há um consenso sobre a necessidade urgente de mudança. Várias vozes apelam à realização de um debate alargado que envolva Federação, clubes, Estado e sociedade civil, com o objetivo de encontrar soluções concretas para revitalizar o futebol santomense.
Para os adeptos, a paixão pelo futebol continua intacta, mas a paciência está a esgotar-se. Sem reformas estruturais e uma nova visão para o desporto, temem que os maus resultados se tornem permanentes e que a Seleção Nacional perca, definitivamente, a sua relevância.
Fonte: TVS