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Zézé com 94 anos é o descendente cabo-verdiano mais antigo em Água Izé

A roça de Água Izé, no distrito de Cantagalo, uma das mais antigas de São Tomé e Príncipe e referência do património histórico-cultural nacional, acolhe descendentes de trabalhadores contratados da época colonial, entre os quais Zézé, de 94 anos, considerado o mais antigo descendente cabo-verdiano da comunidade.

Zézé, filho de pais cabo-verdianos, nasceu em São Tomé e vive na roça Água Izé, localizada no distrito de Cantagalo, pioneira na cultura do cacau.

Ao longo da vida, trabalhou como motorista e recorda os tempos de intenso trabalho na roça, que chegou a albergar várias fábricas. Hoje, Zézé é pai, avô e bisavô e uma figura representativa da comunidade local, embora enfrente dificuldades na fala.

“Dia a dia era muito trabalho, tudo isso aqui era novo”, recordou Zézé.

Com familiares residentes em Cabo Verde, Zézé referiu que mantém contacto regular com os parentes. Para além de Zézé, Domingas Manuela, descendente de trabalhadores contratados de Angola e Moçambique, também integra a comunidade da roça.

Com 67 anos, Domingas vive na roça desde o nascimento e começou a trabalhar aos 12 anos, no secador, numa época marcada por trabalho árduo e poucas alternativas.

“Eu comecei a trabalhar com 12 anos no secador. No dia a dia, lavávamos carroço. De manhã íamos para Abade carregar brita e regressávamos para casa às 10 horas. À tarde, o capataz ia-nos buscar para tirar carroço no terreno e levar para o armazém. Cada pessoa fazia dois rolos de saco de carroço”, explicou.

Segundo a mesma, o trabalho incluía ainda o transporte do produto para as máquinas de seleção. Mais tarde, aos 17 anos, passou a trabalhar no campo, onde capinava sob vigilância constante dos capatazes.

“Quando eu tinha 17 anos comecei a trabalhar no mato e recebia metade do salário, porque diziam que eu era menor. Comecei a chorar. […] Mandaram-nos para outro campo cheio de capim, difícil de capinar, e disseram que quem capinasse entre 30 a 50 teria pagamento completo”, contou.

Apesar das dificuldades, enfrentou o desafio com determinação.
“Eu fui decidida a conseguir. Estava a capinar, quase me cortava, mas continuei e aguentei”, sublinhou.

Para além das memórias de trabalho, a comunidade de Água Izé destaca-se pela sua forte tradição gastronómica, baseada na produção de milho símbolo da riqueza alimentar local, transmitido entre gerações.

“Nós semeamos, colhemos, secamos para fazer cachupa, massa, cuscuz, camoca… fazemos muitas coisas com milho. Aprendi com a minha falecida avó. Também usamos este milho para fazer comida e dar aos idosos cabo-verdianos da zona”, explicou a moradora Milú Barreto.

Antigamente, a roça desenvolvia atividades como o funcionamento do secador e da estufa para o cacau e o coco, bem como a produção de banana madura para exportação. Domingas considera que o período atual é melhor.

“Nós não tínhamos escolha, porque não tínhamos para onde ir. Éramos praticamente escravos. Levantávamos às quatro à espera do trator para irmos a Claudino. Agora estamos melhor”, acrescentou.

Hoje, cada história e cada rosto destes idosos representam, para a comunidade de Água Izé, um património vivo de tradições e cultura que resistem ao tempo e permanecem firmes, apesar dos desafios.

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