25 de novembro: Três anos de silêncio, dor e impunidade
Três anos depois, não foi apenas o tempo que passou foi a confiança que se perdeu. O 25 de novembro não pode continuar enterrado no silêncio. O país merece respostas. As famílias merecem justiça. A memória das vítimas merece verdade.
Passaram-se exatamente três anos desde o fatídico 25 de novembro de 2022 um dia gravado na memória coletiva de São Tomé e Príncipe como um dos episódios mais sombrios da nossa história recente.
O ataque ao quartel das Forças Armadas, seguido da detenção e morte de quatro civis sob custódia militar, não foi apenas um acontecimento dramático: foi uma ferida aberta na consciência nacional, e três anos depois, o país continua à espera de respostas, justiça e responsabilização. E esse silêncio institucional pesa.
O QUE ACONTECEU NÃO PODE SER ESQUECIDO.
Na madrugada daquele dia, o país acordou sob o impacto de um alegado “ataque ao quartel”, imediatamente rotulado pelas autoridades como uma tentativa de golpe de Estado. Mas o que se seguiu ultrapassa qualquer narrativa política. Quatro cidadãos detidos com vida foram posteriormente apresentados mortos, com sinais evidentes de tortura. O episódio chocou o país, alarmou organizações internacionais e expôs fragilidades profundas nas estruturas de comando e fiscalização do Estado.
Com o passar dos dias, a poeira assentou… mas a verdade nunca foi revelada.
TRÊS ANOS DEPOIS: ONDE ESTÁ A JUSTIÇA?
A pergunta que ecoa entre famílias, juristas, ativistas e cidadãos é simples e dolorosa: por que razão, após três anos, nenhum responsável militar ou político foi efetivamente responsabilizado?
Inquéritos foram anunciados. Comissões prometidas. Apoio internacional solicitado. Discursos foram feitos, intenções declaradas. Porém, tudo ficou no plano das palavras. Nada de concreto avançou.
Pior: o processo tornou-se um labirinto jurídico onde peças essenciais desapareceram, prazos caducaram e figuras centrais foram libertadas algumas por excesso de prisão preventiva, outras por decisões obscuras que a sociedade não compreende e o Estado não explica.
Para um caso marcado por mortes sob custódia do Estado, a ausência de julgamentos transparentes não é apenas uma falha judicial: é um alerta sobre a saúde da nossa democracia.
IMPUNIDADE MILITAR: O PERIGO DO PODER SEM ESCRUTÍNIO.
Quando crimes cometidos dentro de instituições do Estado sobretudo nas Forças Armadas não são investigados com rigor, o país envia um recado perigoso: há quem esteja acima da lei. A ideia de que quem possui armas pode escapar à responsabilidade mina a confiança pública e fragiliza o equilíbrio constitucional.
As Forças Armadas devem ser um pilar de estabilidade e profissionalismo. Para isso, precisam de transparência, fiscalização civil e responsabilização. Exigir isso não é atacar a instituição é defendê-la.
Nenhuma farda, por mais prestigiada, pode servir de escudo para encobrir crimes.
AS FAMÍLIAS DAS VÍTIMAS CONTINUAM À ESPERA.
Três anos depois, as famílias dos quatro homens mortos continuam sem respostas, sem justiça e sem encerramento. Carregam o peso da perda e a dor da indiferença institucional. Um Estado que ignora o sofrimento das vítimas falha na sua missão essencial: proteger a dignidade humana.
Não se trata de política. Não se trata de partidos. Trata-se de ética. Trata-se de humanidade.
O 25 DE NOVEMBRO É UM ESPELHO DO PAÍS E NÃO GOSTAMOS DO QUE VEMOS.
A forma como lidamos com esta tragédia diz muito sobre quem somos como nação. Somos um povo pacífico, mas não podemos confundir paz com complacência. Somos tolerantes, mas não podemos deixar que essa tolerância se transforme em resignação. Acreditamos no diálogo, mas não podemos permanecer calados quando vidas são tiradas sem explicação.
O 25 de novembro obriga-nos a olhar para o futuro com seriedade. Sem justiça, não há confiança. Sem responsabilização, não há progresso. Sem verdade, não há reconciliação.
É PRECISO AGIR ANTES QUE SEJA TARDE.
A espera por justiça já ultrapassou todos os limites razoáveis. O país precisa de medidas concretas:
1. Reabertura total e transparente do processo, com divulgação pública dos resultados.
2. Responsabilização criminal dos envolvidos, independentemente do posto, cargo ou influência.
3. Criação de mecanismos independentes de fiscalização das Forças Armadas.
4. Memorialização das vítimas, para que a sociedade não esqueça e para que nunca mais se repita.
Isto não é revanchismo. É justiça. É respeito pela vida humana. É a única maneira de garantir que não haja outro 25 de novembro em São Tomé e Príncipe.
Três anos depois, não foi apenas o tempo que passou foi a confiança que se perdeu. O 25 de novembro não pode continuar enterrado no silêncio. O país merece respostas. As famílias merecem justiça. A memória das vítimas merece verdade.
E nós, enquanto sociedade, temos a obrigação moral de não deixar este caso adormecer.
Quando a justiça falha, toda a nação fracassa.
E São Tomé e Príncipe é maior do que isso.
É hora de levantar a voz.
É hora de exigir o que é devido.
É hora de fazer justiça.
Por: Daniel Ambrósio
