Diplomacia Capturada : A Urgente Reconstrução do Serviço Diplomático da Guiné-Bissau- Mamadou António
A Guiné-Bissau já teve uma diplomacia respeitada no passado. Teve representantes que defendiam o país com honra, competência e dignidade. Esse legado precisa ser recuperado.
A Guiné-Bissau vive hoje uma das fases mais sombrias da sua história institucional. O que está em curso não é apenas uma crise política, mas um processo sistemático de captura do Estado. Um dos setores mais gravemente atingidos por esta degradação é a diplomacia nacional, outrora um pilar de prestígio e profissionalismo, hoje transformada, em muitos casos, numa extensão informal de redes de poder associadas ao regime e aos interesses obscuros que o sustentam, desde alegadamente o tráfico de passaportes diplomáticos, drogas, todo o tipo de tráfico de influências incluindo venda de votos.
Ao longo dos últimos seis anos, a diplomacia da Guiné-Bissau foi sistemáticamente e deliberadamente desmantelada enquanto serviço de carreira. Em seu lugar, proliferaram nomeações políticas, de compadrios, de informantes, operadores de influência e agentes não oficiais do regime de Umaro Sissoco Embaló. O resultado é devastador: uma política externa descredibilizada, subordinada a interesses pessoais e afastada do interesse nacional.
É importante ser claro: nem todos os embaixadores da Guiné-Bissau são serventes do regime. Existem ainda, felizmente, diplomatas dignos, profissionais de carreira e patriotas comprometidos com o Estado. Contudo, não é coincidência que os postos estratégicos da diplomacia —Lisboa, Paris, Bruxelas, Nações Unidas, Washington e a representação junto da União Africana — estejam hoje todos ocupados, em larga medida, por figuras próximas, cúmplices ou politicamente alinhadas com os atuais usurpadores do poder porque eles mesmos, alegadamente, também o são.
Este facto ajuda a explicar comportamentos inaceitáveis no plano diplomático, como a recusa do representante em Lisboa, Artur Silva, em receber uma carta formal — um gesto que viola normas básicas de protocolo internacional. Paris está hoje representada por um aliado fiel do regime um seu agente de sempre. Bruxelas e a União Europeia por um dos mais próximos cúmplices de Úmaro Sissoco Embaló.
Nas Nações Unidas, a situação é ainda mais grave. A representação guineense é ocupada não apenas por um dos maiores aliados e fiéis de Sissoco e do regime associado ao narcotráfico, mas por indivíduos que publicamente reclamam laços familiares e outros vínculos identitários com o próprio USE. Há denúncias recorrentes e sérias alegações de que diplomatas ligados a este circuito viajam com malas de dinheiro e outras bens de valores para fins de lavagem financeira, transporte de joias e, em alguns casos frequentes até envolvimento em esquemas de tráfico de drogas. Mesmo quando ainda carecem de investigação judicial independente, estas acusações são suficientemente graves para comprometer a credibilidade internacional do país.
Em Washington, a proximidade política com o regime levanta interrogações profundas sobre a neutralidade institucional da representação. E no caso da União Africana, a situação assume um caráter estratégico ainda mais sensível. Addis Abeba não é um posto qualquer. Pela sua centralidade política continental, a União Africana deveria ser representada por diplomatas de carreira, de comprovada competência técnica, integridade moral e lealdade institucional ao Estado guineense — não por agentes políticos associados à antiga ministra Susi Barbosa e, por vias interpostas, agentes informantes do próprio Umaro Sissoco Embaló.
Esta realidade não é fruto do acaso. Trata-se de uma estratégia consciente: substituir diplomatas profissionais altamente competentes por agentes políticos leais, na tentativa de controlar narrativas, silenciar denúncias internacionais e proteger interesses ilegítimos, tipo, venda de passaportes diplomáticos entre outros.
Uma diplomacia capturada é um Estado fragilizado. Sem diplomatas independentes, formados e comprometidos com a República, a Guiné-Bissau perde voz, credibilidade e capacidade real de defender os seus interesses soberanos.
A reconstrução do serviço diplomático guineense tornou-se, portanto, uma prioridade nacional. Será necessário reerguer praticamente do zero um corpo diplomático baseado no mérito, na formação, na carreira, na ética pública e na lealdade institucional — não na fidelidade a indivíduos, clãs políticos ou redes informais de poder.
A Guiné-Bissau já teve uma diplomacia respeitada no passado. Teve representantes que defendiam o país com honra, competência e dignidade. Esse legado precisa ser recuperado.
O país não precisa de informantes políticos no estrangeiro. Precisa de diplomatas. Não precisa de embaixadas transformadas em centros de propaganda do regime. Precisa de missões que representem o povo guineense e a República.
A luta pela democracia na Guiné-Bissau passa necessariamente também pela libertação da sua política externa do sequestro autoritário. Sem diplomacia profissional, não há soberania real. Sem servidores de Estado, não há República.
É tempo de dizer basta.
