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Mercado em ruínas, mulheres em pé: desafios das palayês e a necessidade de políticas públicas para o comércio informal em São Tomé e Príncipe- Alda Ceita

O mercado pode ter dificuldades, mas as mulheres que o mantêm vivo continuam firmes. Talvez este seja o momento de olhar para essa realidade com mais atenção e transformar desafios antigos em oportunidades de mudança.

Quem passa pelo centro da cidade todos os dias já se acostumou com a cena: mulheres sentadas ao lado de cestos, frutas cuidadosamente organizadas, sacos de produtos apoiados no chão e um olhar atento à passagem dos clientes. São as palayês, mulheres que fazem parte da vida económica e social de São Tomé e Príncipe há gerações.

Muitas vezes, no entanto, o que parece uma cena comum esconde uma realidade mais complexa. Antes de o movimento começar, essas mulheres já passaram horas a preparar a mercadoria, a deslocar-se de longe e a investir o pouco que têm na esperança de conseguir vender ao longo do dia. Quando a venda não acontece, a expressão popular diz tudo: palaiê quega na bendê — a carga ficou por vender.

Em São Tomé e Príncipe, as palayês desempenham um papel essencial na economia informal e na segurança alimentar de muitas famílias. Em muitos casos, esse trabalho representa a principal fonte de rendimento para sustentar as casas e garantir a educação dos filhos.

Apesar disso, a realidade vivida por grande parte dessas feirantes continua marcada por dificuldades estruturais que merecem atenção. Entre elas estão a instabilidade do espaço de venda, a ausência de infraestruturas adequadas e os frequentes momentos de tensão relacionados com a organização do espaço urbano.

No centro da capital, é comum ver palayês a venderem nos passeios ou em espaços improvisados. Essa situação, embora resulte da necessidade de sobrevivência, acaba por gerar intervenções das autoridades responsáveis pela organização da cidade.

A presença da polícia nesses locais tem como objetivo fazer cumprir as normas que regulam o comércio e a utilização dos passeios públicos. No entanto, para muitas feirantes, esses momentos são vividos com pressão e correria. As mercadorias precisam ser recolhidas rapidamente e, muitas vezes, o pouco que já estava exposto para venda volta a ser guardado.

É importante reconhecer que a cidade precisa de organização e que o comércio nos passeios não é a solução ideal. Mas também é necessário perguntar: por que motivo tantas mulheres continuam ali?

Na maioria das vezes, a resposta é simples: falta de alternativas reais que lhes permitam continuar a trabalhar.

Uma das orientações mais frequentes é que as feirantes passem a vender no mercado de Bobô Forro. Em teoria, essa solução parece lógica. Um espaço destinado ao comércio, mais organizado e adequado para a venda de produtos.

No entanto, a realidade levanta algumas questões importantes. Será que o mercado consegue acolher todas as palayês que hoje vendem no centro da capital? 

Além disso, algumas das mulheres que já trabalham nesse mercado relatam dificuldades que ainda precisam ser resolvidas. Em alguns casos, faltam mesas adequadas para todos, as casas de banho são insuficientes e a infraestrutura ainda não responde completamente às necessidades de quem passa o dia inteiro a vender.

Diante disso, torna-se difícil exigir que todas se mudem para um espaço que ainda não está totalmente preparado para recebê-las com dignidade.

Por essa razão, o debate sobre o comércio informal precisa ir além da simples aplicação de normas. É necessário pensar em soluções mais amplas e sustentáveis.

Uma possibilidade seria a criação de um plano de descentralização dos mercados, fortalecendo os espaços de venda nos diferentes distritos do país. Isso permitiria que cada distrito pudesse abastecer a sua própria população com produtos a preços semelhantes aos praticados na capital.

Essa medida poderia reduzir a concentração de vendedores na cidade e melhorar o acesso da população a produtos frescos em diferentes regiões.

É verdade que muitos acreditam que vender na capital oferece mais oportunidades. No entanto, mudanças também podem acontecer quando existem investimento, organização e orientação adequada à população. Nesse processo, o Estado tem um papel importante: criar condições, estruturar melhor os mercados e ajudar a construir novas dinâmicas  económicas. Outro ponto que não pode ser ignorado é o papel social das palayês. 

Durante décadas, muitas dessas mulheres sustentaram as suas famílias com o trabalho feito nos mercados e nas ruas da cidade. Foi assim que muitos filhos cresceram, estudaram e hoje ocupam  diferentes posições na sociedade. Esse facto mostra que o trabalho das palayês vai além da venda de produtos. Ele faz parte da história social do país e contribuiu para a formação de gerações.

Por isso, discutir soluções para melhorar as condições de trabalho dessas mulheres não é apenas uma questão de organização urbana. É também uma forma de reconhecer o valor de quem ajudou, silenciosamente, a construir o presente de São Tomé e Príncipe.

O mercado pode ter dificuldades, mas as mulheres que o mantêm vivo continuam firmes. Talvez este seja o momento de olhar para essa realidade com mais atenção e transformar desafios antigos em oportunidades de mudança.

 

Por: Alda Ceita

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