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Responsabilização na gestão do desporto nacional: entre o silêncio e a urgência de mudança- Francisco Salvador

E aqui entra a questão essencial: quem responde por isto? A cultura de impunidade (que já não é novidade) tem sido um dos maiores entraves ao desenvolvimento do desporto nacional. Dirigentes que permanecem anos em funções sem resultados visíveis, sem prestação de contas clara e, muitas vezes, sem consequências pelas falhas acumuladas. 

Existe um momento em que história deixa de ser um registro (re)confortante e se transforma em soco da realidade. Falar de desporto no nosso país é, inevitavelmente, falar de potencial desperdiçado.

Um país jovem, com talento natural e paixão pelo desporto, continua preso a uma realidade marcada por fragilidades estruturais, ausência de estratégia e, sobretudo, uma preocupante falta de responsabilização na gestão. 

Nos últimos anos, vários sinais tornaram-se demasiado evidentes para serem ignorados. Um dos exemplos mais paradigmáticos surge no órgão reitor do futebol nacional, onde relatos de situações em que contas foram aprovadas sem espaço para questionamento assembleias gerais sem debate nem transparência – levantaram sérias dúvidas sobre a gestão de fundos provenientes de organismos internacionais. 

Mas a crise não se limita ao futebol. No atletismo, modalidade base de qualquer sistema desportivo, o cenário é igualmente preocupante. A falta de apoio aos atletas tem levado à estagnação: recordes nacionais permanecem intocados há mais de duas décadas, não por excelência, mas por ausência de condições.

Tenho em mente, por exemplo, atleta Agate de Sousa, atual campeã mundial de salto em comprimento, vestida com as cores da bandeira portuguesa. Essa imagem remete para algo que nos toca na primeira pessoa. Outras haverá. É por isso que se poderá dizer que, quando um país deixa de produzir progresso desportivo, não é por falta de talento, claro está, é por falta de gestão. 

Mas há um problema. Num Estado de direito, a ausência de escrutínio não é nem pode ser vista como um mero problema administrativo ou um lapso de gestão, mas, e sim, como um problema ético. Quando o poder deixa de ser fiscalizado, deixa também de prestar contas. É, precisamente, nesse vazio que prosperam a arbitrariedade, o (ab)uso de poder e a irresponsabilidade. Não escrutinar é, mais e ao menos, abdicar do compromisso com a transparência, com a justiça e, por assim dizer, com o respeito devido ao interesse público. O problema central, portanto, não é apenas a escassez de recursos. 

É a forma como os poucos recursos existentes são geridos. Infraestruturas degradadas, ausência de planeamento estratégico, falta de formação de dirigentes e opacidade financeira compõem um quadro que revela um sistema mais reativo do que organizado. 

E aqui entra a questão essencial: quem responde por isto? A cultura de impunidade (que já não é novidade) tem sido um dos maiores entraves ao desenvolvimento do desporto nacional. Dirigentes que permanecem anos em funções sem resultados visíveis, sem prestação de contas clara e, muitas vezes, sem consequências pelas falhas acumuladas. 

O desporto transformou-se, assim, num espaço de gestão sem responsabilidade — um paradoxo perigoso para qualquer sociedade que ambiciona progresso. 

Responsabilizar não significa apenas punir. 

Significa criar mecanismos institucionais que garantam, designadamente, transparência na gestão financeira, avaliação periódica de desempenho, rotatividade nos cargos dirigentes e a participação efetiva dos clubes e atletas nas decisões. 

Significa, acima de tudo, romper com a lógica do silêncio sepulcral e, aliás, do deixar andar. Num país onde o desporto poderia ser vetor de inclusão social, saúde pública e até projeção internacional, continuar a ignorar estas falhas é um luxo que já não existe. A responsabilização deve deixar de ser um discurso ocasional e passar a ser um princípio estruturante. 

Porque o problema não está apenas na falta de meios — está na falta de consequência. E enquanto não houver consequência, dificilmente haverá mudança.

Por:  Francisco Salvador

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