Acidentes rodoviários: a normalização da tragédia em São Tomé e Príncipe – Opinião
É com tristeza que se observa como estas perdas são frequentemente atribuídas ao “azar” ou ao destino, como se a tragédia fosse inevitável e não o resultado de comportamentos previsíveis aliados a falhas estruturais persistentes. Esta leitura cómoda impede-nos de enfrentar o problema com a seriedade que ele exige.
Em São Tomé e Príncipe, os acidentes rodoviários deixaram de ser episódios ocasionais para se tornarem parte da rotina nacional. O que deveria causar indignação coletiva é hoje recebido com uma preocupante normalidade. Cada novo acidente surge como mais um dado do quotidiano, quando, na verdade, representa a perda irreparável de vidas humanas, famílias em luto e futuros interrompidos.
É com tristeza que se observa como estas perdas são frequentemente atribuídas ao “azar” ou ao destino, como se a tragédia fosse inevitável e não o resultado de comportamentos previsíveis aliados a falhas estruturais persistentes. Esta leitura cómoda impede-nos de enfrentar o problema com a seriedade que ele exige.
A imprudência no trânsito é visível e recorrente. Ultrapassagens perigosas, excesso de velocidade e desrespeito sistemático pelas regras básicas de circulação fazem parte do cenário diário. Em muitos casos, a pressa é confundida com perícia, e o incumprimento da lei com habilidade ao volante. O Código da Estrada parece, por vezes, funcionar mais como sugestão do que como norma.
As motorizadas, em particular, tornaram-se símbolo desta realidade. Não é raro ver um único veículo a transportar duas ou três crianças, sem capacete e sem qualquer proteção. A infância segue exposta, equilibrada numa confiança silenciosa de que “nunca acontece nada”. Até ao dia em que acontece — e o preço pago é demasiado alto.
Seria, no entanto, injusto atribuir toda a responsabilidade apenas aos condutores. As condições das estradas e a gestão do trânsito desempenham um papel determinante neste cenário. Buracos frequentes, vias degradadas e sinalização inexistente ou pouco visível criam um ambiente onde o risco se multiplica e o erro se torna mais provável.
Recentemente, vivi uma situação que ilustra bem a banalização do perigo: fui surpreendida por um motorista que me ultrapassou pela direita, numa manobra tão arriscada que só não terminou em tragédia por circunstâncias que escapam à lógica humana. Não havia emergência nem necessidade. Havia apenas a convicção perigosa de que nada aconteceria.
Noutra ocasião, presenciei um episódio revelador de uma falha diferente, mas igualmente grave. Uma pessoa que se encontrava no país de férias entrou num sentido proibido. À primeira vista, tratava-se de uma infração clara. No entanto, constatou-se que não existia qualquer sinalização visível que indicasse a proibição. Neste caso, não foi a imprudência que conduziu ao erro, mas a ausência de informação adequada. Não se pode exigir o cumprimento rigoroso de regras que não estão claramente sinalizadas.
Este conjunto de fatores — comportamentos irresponsáveis, fiscalização insuficiente, infraestruturas precárias e sinalização deficiente — cria um ciclo perigoso que continua a custar vidas. Lamentar as mortes é necessário, mas manifestamente insuficiente. Preveni-las deve ser uma prioridade institucional e coletiva.
A segurança rodoviária não se constrói apenas com leis escritas. Exige aplicação consistente, fiscalização eficaz, investimento contínuo nas infraestruturas e educação cívica. Cada vida perdida na estrada representa um fracasso coletivo que não pode continuar a ser normalizado.
O silêncio que se segue às sirenes não pode continuar a ser a resposta de um país que se pretende responsável e comprometido com a proteção da vida humana.
Ass: Alda Ceita-Cidadã preoucupada
