Meu voto conta: participação consciente é fortalecer a democracia santomense
Cada participação consciente é uma afirmação de cidadania ativa. É a prova de que o eleitor acredita que o futuro do país se constrói com envolvimento, não com afastamento.
A presente reflexão nasce da experiência prática adquirida na implementação do projeto Fortalecimento Democrático – Vozes das Mulheres e da Juventude e da colaboração com parceiros na execução do projeto Nossa Voz, Nosso Futuro.
O contacto direto com comunidades, jovens em idade pré-universitária e mulheres em diferentes contextos sociais tem evidenciado um desafio estrutural: mais do que falta de interesse, existe uma frágil noção de que a participação cívica é uma necessidade democrática e uma responsabilidade individual. Muitos cidadãos não se reconhecem como agentes do processo político, mas como observadores distantes. É a partir dessa vivência concreta — e não apenas de uma análise teórica — que surge a necessidade de partilhar esta opinião.
São Tomé e Príncipe construiu, ao longo das últimas décadas, uma reputação de estabilidade democrática rara na região. Eleições regulares, alternância de poder e participação popular tornaram-se marcas importantes da nossa vida política.
No entanto, alguns fenómenos silenciosos merecem reflexão. Mais do que simples estatísticas eleitorais, eles levantam questões profundas sobre participação, confiança nas instituições e educação cívica.
Do ponto de vista jurídico, a regra é clara: apenas os votos válidos — corretamente atribuídos a candidatos ou partidos — determinam os resultados eleitorais. Isso significa que a qualidade da participação importa tanto quanto a sua quantidade. Quando parte significativa do eleitorado participa sem compreensão plena do processo, a decisão política acaba por refletir a escolha de um grupo proporcionalmente mais informado. Em termos democráticos, a representação torna-se mais estreita. O sistema continua legítimo, mas a expressão da vontade popular torna-se menos ampla.
Em São Tomé e Príncipe, as fragilidades na participação cívica têm origens diversas. Algumas resultam de lacunas na educação cívica, outras da dificuldade de acesso à informação clara sobre o funcionamento do sistema político. Há ainda perceções de distanciamento entre cidadãos e instituições. Estes fatores não podem ser ignorados. Eles revelam a necessidade de fortalecer a cultura democrática desde a base.
Reduzir erros de participação e ampliar a consciência política não significa retirar o direito de protesto ou impor escolhas. Significa garantir que cada eleitor tem condições reais de compreender o impacto do seu voto. Educação cívica contínua é fundamental. Explicar o funcionamento do sistema eleitoral nas escolas, nas comunidades, nos meios de comunicação social e através de campanhas públicas fortalece a autonomia do cidadão.
No entanto, qualquer estratégia duradoura para melhorar a qualidade da participação passa, inevitavelmente, pela escola. A fragilidade da literacia cívica em São Tomé e Príncipe não é apenas um problema eleitoral — é um desafio educacional estrutural. Muitos jovens concluem a escolaridade com conhecimento limitado sobre os seus direitos e deveres cívicos, sobre o funcionamento das instituições do Estado e, sobretudo, sobre a própria Constituição da República. A Lei Magna, que define as bases da nossa convivência democrática, permanece distante do quotidiano de grande parte dos cidadãos.
Reforçar o currículo escolar com educação cívica prática, contínua e adaptada à realidade nacional é um investimento democrático. Não se trata apenas de ensinar conceitos jurídicos, mas de formar cidadãos conscientes, capazes de compreender o valor do voto, o papel das instituições e a responsabilidade da participação política. Uma democracia sólida começa na sala de aula. Quando os alunos aprendem cedo o significado da cidadania, tornam-se adultos que participam com convicção, e não por inércia ou desinformação.
Também é essencial melhorar o acesso à informação. Muitos eleitores sentem dificuldade em compreender propostas políticas ou em comparar programas. A política precisa comunicar melhor, em linguagem simples, próxima da realidade santomense. Quando o cidadão entende o que está em jogo, participa com mais segurança.
Outro fator decisivo é a confiança nas instituições. Transparência no processo eleitoral, atuação independente das autoridades e fiscalização credível reforçam a legitimidade. Num país pequeno como o nosso, onde todos se conhecem, a percepção de justiça e clareza tem impacto direto na participação.
Cada participação consciente é uma afirmação de cidadania ativa. É a prova de que o eleitor acredita que o futuro do país se constrói com envolvimento, não com afastamento. A democracia santomense é jovem, mas resiliente. O seu fortalecimento não depende apenas de eleições regulares, mas de participação informada de homens e mulheres — sobretudo mulheres e jovens.
Ampliar a consciência cívica é ampliar a voz do povo. E quanto mais vozes participarem com clareza e responsabilidade, mais sólida será a nossa democracia.
Porque cada voto conta — e o futuro do país também se decide ali.
Por Liudmila Leal