Sociedade -

Quando o Parlamento grita, a democracia perde tempo- Francisco Salvador

Estou em crer que este episódio servirá, ao menos, como alerta. Justa ou erradamente, as
crises trazem consigo mostras de que também ensinam. Resta saber se aprenderemos que
governar e fazer oposição exigem mais do que voz alta  exigem consciência histórica, 
sentido de limite e compromisso com algo maior do que interesses imediatos.

ssisti com inquietação à confusão instalada na Assembleia Nacional, no contexto da moção de censura ao Governo. Não me perturbou a moção em si — instrumento legítimo de qualquer democracia parlamentar —, mas o modo como o debate se degradou.

Sempre acreditei que a política é, em sentido urbano, da polis, lugar onde o outro é umcomigo; é, aliás, o nosso próximo. Mas, para lá disso e por isso mesmo, também é onde o autocontrolo é exercitado. Todos ou, pelo menos, alguns de nós sabemos (ou deveria saber) que civilização é conter impulsos, não libertá-los. O que vi foi o contrário: emoções à flor da pele, interrupções constantes e uma substituição perigosa do argumento pelo ruído. Isso não fortalece a democracia; fragiliza-a.

Pergunto-me se, naquele momento, o foco estava realmente no bem comum ou na vitória simbólica sobre o adversário. A política — porque nós somos animais políticos, como sabiamente Aristóteles colocou a questão — perde o seu encanto quando o outro deixa de ser
lugar de comunhão, quer isto dizer, comumunião e passa a ser um inimigo (uma espécie de presença infernal). O debate da moção de censura deveria servir para esclarecer o país, não para aprofundar a desconfiança dos cidadãos em relação às instituições. Porque, quando o
Parlamento grita, algo essencial deixa de ser dito. Isso é mau para todos nós, sem excepção, inclusive para o país.

Não ignoro que o nosso arquipélago carrega uma história de crise política marcada por instabilidades e disputas intensas. O exercício parlamentar parece, também hoje, oscilar entre estes dois baluartes sentimentais, contra os quais, em casos extremos, parece
inclusivamente naufragar. Justamente por isso, esperava mais maturidade de quem ocupa o espaço máximo da representação popular. Sabendo que a democracia não é unanimidade mas também não é desordem. É conflito com regras, divergência com respeito.

O que mais me preocupa não é o desfecho da plenária, mas a mensagem que fica para a sociedade: a ideia de que o poder é um espetáculo e não uma responsabilidade. Quando isso acontece, a política afasta-se do cidadão comum e passa a existir apenas para si mesma.

Estou em crer que este episódio servirá, ao menos, como alerta. Justa ou erradamente, as crises trazem consigo mostras de que também ensinam. Resta saber se aprenderemos que governar e fazer oposição exigem mais do que voz alta — exigem consciência histórica,
sentido de limite e compromisso com algo maior do que interesses imediatos. Se não for assim, continuaremos a confundir democracia com barulho, e debate com confronto estéril e, portanto, nunca haverá cortesia democrática.

Ass.: Francisco Salvador

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