São Tomé e Príncipe: A arte de fingir que somos um país
Plantar a semente agora pode não mudar o amanhã,
mas deixará um rastro de dignidade no chão podre onde estamos. E mesmo que leve cem anos a brotar,
vale mais isso do que continuar a fingir que somos um país.
O Grito do Obô
I. O Disco Riscado da Corrupção
Em São Tomé e Príncipe, todas as conversas acabam sempre no mesmo refrão: corrupção.
É o nosso desporto nacional, o passatempo favorito.Não há mesa, esquina ou grupo de WhatsApp onde alguém não repita:
“Os políticos são corruptos, o país não anda, não há solução.”
É o mantra da desistência. E a ironia?
Toda a gente acha que sabe o que devia ser feito, mas ninguém explica como — ou porquê funcionaria.
Vivemos num país onde todos são especialistas de bar: de petróleo, de economia, de filosofia política e até de teologia aplicada à cerveja.
Cada santomense tem uma teoria sobre o país — mas ninguém tem um plano.
Somos um povo que confunde indignação com inteligência. E confundimos falar muito com pensar bem.
A verdade é simples: não é que ninguém saiba o que está errado — é que ninguém quer estar certo o suficiente para mudar.
I. Cresci a Ouvir o Mesmo Disco
Cresci a ouvir este lamento. Até dentro da minha família.
Tios e avós repetiam, quase como uma praga:
“São Tomé nunca vai sair do abismo. Se eu fosse jovem, já tinha emigrado.”
Não é pessimismo — é conformismo.
Sim, nasci com privilégios que muitos nunca tiveram.
Mas vi o outro lado, porque as más decisões não poupam ninguém. Os meus pais deram-me educação, e o mais importante: consciência. Mostraram-me que o privilégio é uma dívida.
Enquanto uns iam buscar água ao rio, eu abria a torneira. Enquanto outros comiam o que havia, eu escolhia o que queria.
E mesmo assim, cresci com a certeza de que não era melhor que ninguém — só mais responsável.
Sonhava alto, às vezes alto demais.
Hoje percebo porquê: sonhava com um país que nunca existiu, e talvez nunca venha a existir. Porque São Tomé não é pobre de dinheiro — é pobre de mentalidade.
E essa pobreza é hereditária.
Passa-se como um vírus — de geração em geração — embrulhada em desculpas e saudade.
I. O País Herdado Que Ninguém Soube Segurar
A independência não foi conquista — foi oferta. Deram-nos o país pronto, e nós partimos os espelhos.
Os portugueses deixaram escolas, hospitais, instituições. Deixaram uma casa com telhado.
Nós arrancámos as telhas e agora queixamo-nos da chuva.
Cinquenta anos depois, a herança virou ruína.
Os mais velhos dizem: “a juventude não presta.”
E têm razão.
Mas quem os criou?
Quem lhes mostrou o que é ter palavra, ter propósito? Quem lhes deu exemplo?
Os mesmos que agora apontam o dedo.
Herdaram um país funcional e deixaram-nos uma carcaça. Não nos prepararam, nem quiseram preparar-se.
E agora vivem de nostalgia — nostalgia é a maquilhagem da culpa.
“O meu tempo é que era bom” — dizem. Era bom para quem?
I. O Santomense — O Oprimido Que Sonha em Mandar
O santomense não quer justiça — quer poder.
Quer sentir o sabor de mandar, nem que seja um dia.
É o funcionário público que chega tarde e exige respeito.
É o cidadão que grita “abaixo a corrupção” e no dia seguinte aceita o banho com sorriso nos lábios.
É o jovem que reclama da falta de oportunidades, mas só quer boa vida: TikTok, festas, iPhones e roupa de marca.
É o emigrante que vive de subsídios, volta nas férias a exibir garrafas e a corromper miúdas com saldo e hambúrgueres da rolote.
Depois volta para a Europa e posta “gratidão” nas redes, como se vivesse um sonho.
Mostramos praias paradisíacas e escondemos o lixo das ruas. Falamos da “receção calorosa”, mas esse amor é só para estrangeiros. Entre santomenses, reina o ódio, a inveja e o racismo disfarçado.
Gostamos mais de um branco rico do que de um preto pobre. E se for mulato e tiver dinheiro, então sim — é “dos nossos”.
Temos uma terra rica e um comportamento miserável. E a vergonha não vem de sermos pequenos.
Vem de sermos pequenos de propósito.
I. Vergonha — A Emoção Que Já Não Sentimos
A faísca acendeu fora do país.
Quando me perguntavam de onde eu era e eu dizia “São Tomé e Príncipe”, ninguém sabia. Comecei a dizer “Portugal”.
Sim, tenho dupla nacionalidade por sangue — mas o sangue que corre em mim é santomense. Nasci e cresci em São Tomé.
Mas aprendi a calar essa parte — não por vergonha da origem, mas por vergonha da imagem.
Tenho vergonha de levar amigos lá.
Vergonha das ruas sujas, da pobreza, da água que falta e da energia que falha.
Vergonha de uma deputada que, em pleno Parlamento, gritou que “o país estava melhor quando havia cerveja gelada.”
Compreendo o que quis dizer — mas há formas e há respeito.
Quando a casa do povo se transforma em taverna, a República morre de vergonha — e o povo nem percebe.
Temos deputados que mal sabem ler, ministros sem escolaridade adequada, e um eleitorado que vota com a barriga.
Mas de onde vêm os governantes? Do povo.
E o povo está apodrecido.
O santomense diz viver “leve-leve”, mas bebe pesado.
E se a vida é tão boa, porque é que a taxa de alcoolismo aumenta todos os anos?
I. A Elite do Faz-de-Conta
Nenhum dirigente santomense tem um currículo invejável.
E não, ter ocupado mil cargos em São Tomé não é experiência — é costume.
Se isso valesse alguma coisa, o país estaria em primeiro no Índice de Desenvolvimento Humano.
Precisamos de líderes que saibam o que é gerir, não recitar.
De pessoas que tenham visto o mundo funcionar — e saibam reproduzir o que viram. Trabalhei numa empresa da Fortune 500 com mais empregados do que a população ativa santomense.
Lá, aprendi o que é verdadeira organização.
Enquanto isso, por cá, um “doutor ministro” gaba-se de ter trabalhado na Microsoft — em customer service.
Desculpem, mas isso não é currículo. É comédia.
Não podes ser engenheiro ou economista de renome se o teu laboratório foi São Tomé, o país onde a experiência é sinónimo de sobrevivência.
Temos ministros que não entendem as suas pastas, diretores que nunca lideraram equipas, e deputados que confundem patriotismo com microfone.
A nossa elite é de papel: cheia de pose, sem substância.
I. O Santomense Que Pensa Que Pensa
Há ainda uma nova tribo — os “despertos”, os “intelectuais”, os “a-lenda”.
Os que acham que pensam fora da caixa, mas vivem dentro do reflexo do espelho.
Há dias, um jovem que se autointitula “A Lenda” escreveu isto:
“Aqui nessa foto toda a gente fala pelo menos duas línguas, já leu no mínimo A Arte da Guerra, ainda se lembra do Felizmente Há Luar e do Sermão de Santo António aos Peixes, ainda fala sobre a fórmula resolvente, está a par das leis de Newton, e todos têm opinião própria. Se te sentares aqui mal com conversa de quem tá a bater mais ou quem bumbou quem, só passas vergonha.”
“Bumbou” — para quem não sabe — é gíria para sexo.
Em São Tomé, virou estatuto social: todos se comem e ninguém se respeita.
O mesmo jovem que prega moral e consciência é o primeiro a vangloriar-se — com nostalgia —
de como, na sua época, “batia” mais do que toda a gente. Transformou o passado em troféu e a hipocrisia em filosofia.
É o retrato da geração do ego: fala de intelecto com a mesma boca com que exibe luxúria, cita Sun Tzu mas vive como se a guerra fosse na cama.
Os que realmente têm algo a dizer calam-se — porque em São Tomé, pensar alto é pedir para ser queimado.
E os que falam, falam para ver se brilham.
Um deputado da oposição, por exemplo, vive nas redes sociais com a hashtag #destacar. Opina sobre tudo, cita artigos, posa de santo.
Mas já foi ministro — e nada fez.
Hoje é capaz de dizer que tudo o que tem veio de “negócios privados”.
Conveniente.
Quando o partido dele governa, cala-se. Quando cai, vira mártir.
Em São Tomé, até a revolta é oportunista.
O Facebook virou parlamento.
Perfis falsos, fake news, e vídeos de IA a inventar brigas entre o PR e o PM. E o povo acredita.
Acredita em tudo, porque não sabe duvidar. E são esses que vão votar.
Estamos entregues a nós mesmos — e nós somos o nosso próprio castigo.
A RSTP tornou-se missa de domingo da indignação.
Os mesmos comentadores, as mesmas frases, a mesma ladainha.
“O governo isto, o governo aquilo.”
Mas o governo somos nós.
E nós já apodrecemos há muito.
I. O Espelho e o Golpe Final
O problema de São Tomé e Príncipe não é a pobreza, nem o colonialismo, nem a geografia. O problema é o santomense.
Nós.
Nós que falamos muito e fazemos nada. Nós que exigimos tudo e damos pouco.
Nós que rimos do esforço e veneramos o oportunismo. Nós que confundimos esperteza com inteligência.
Nós que deixámos de ter vergonha — e sem vergonha, não há salvação.
Somos duas ilhas no meio do mundo, jogadas à nossa sorte. Pequenas, esquecidas e divididas.
Mas o inimigo nunca foi o tamanho. Foi a mentalidade.
Enquanto continuarmos a confundir poder com proveito, cultura com barulho e patriotismo com discurso, o país continuará atolado.
O espelho está rachado — mas insistimos em sorrir para ele.
Talvez não haja salvação para a nossa geração.
Mas se quisermos deixar algo além de ruínas, temos de começar hoje. Talvez não vejamos o resultado.
Mas se não começarmos agora, os nossos netos também não verão nada — nem país, nem futuro, nem nome.
E se o verdadeiro problema de São Tomé e Príncipe não for a falta de gente que pensa —
mas o excesso de gente que pensa que pensa?
I. O Grito Que Falta
A solução não está nos que mais gritam — está nos que se calam com lucidez.
Nos santomenses tímidos, sem palco nem “likes”, que observam, pensam e fazem.
São esses que o país precisa de ouvir — não os influencers de moral plástica e frases roubadas do Google.
Precisamos de gestores de verdade, com experiência real, que saibam o que é trabalhar num sistema que funciona.
Precisamos de líderes que não se deslumbrem com microfones, mas com resultados.
Talvez já seja tarde demais para nós — a geração que nasceu no meio da ferrugem e aprendeu a achar normal o absurdo.
Mas ainda há tempo para os nossos netos. Se não por nós, por eles.
O futuro não nasce com slogans, nasce com estrutura.
Não precisamos de milagres — precisamos de gestão, de vergonha e de coragem.
Plantar a semente agora pode não mudar o amanhã,
mas deixará um rastro de dignidade no chão podre onde estamos. E mesmo que leve cem anos a brotar,
vale mais isso do que continuar a fingir que somos um país.
O Grito do Obô
Escrevo para ferir, porque é a única forma de ver se ainda sangramos.
Nota pessoal do autor: O Grito do Obô
Este texto foi escrito com ajuda do ChatGPT.
A maioria usa esta ferramenta para disfarçar a sua mediocridade, copiando o que não sente e assinando o que não entende.
Eu usei-o como espelho: não para parecer mais inteligente, mas para mostrar o que já estava a gritar cá dentro.
A tecnologia não cria pensamento — só o amplifica.
E é por isso que, mesmo com máquinas a escrever por muitos, os que realmente têm alma continuarão um nível acima.
