Cerca de 75 estudantes são-tomenses no Reino de Marrocos estão há quase dois anos sem receber o pagamento regular das bolsas atribuídas pelo Governo, denunciou uma das alunas à RSTP, alegando que os estudantes têm de “escolher entre comer e pagar renda”.
Segundo a estudante, que falou em representação de um grupo de colegas, a situação arrasta-se desde 2024, altura em que chegaram ao Reino de Marrocos para prosseguir os estudos superiores. Desde então, afirmam não ter recebido os valores previstos no contrato de bolsa.
“Desde 2024 até então, não recebemos nada. Hoje acordámos e notámos que o Governo fez algum pagamento, mas não é aquilo que esperávamos, porque, segundo a ministra, seriam pagos dois meses”, disse a estudante à RSTP.
Em fevereiro deste ano, o Governo são-tomense anunciou que iria pagar pelo menos dois meses de bolsas de Estudos/ajuda de custos a todos os estudantes no estrangeiro face às reclamações dos alunos e encarregados de educação.
No entanto, segundo a estudante, apesar do pagamento recente efetuado pelo Governo, os valores recebidos ficaram muito aquém do estipulado.
“Há quem recebeu 60, 70 ou até 80 euros, quando o valor da bolsa é de 300 euros de três em três meses. Não corresponde ao que foi prometido. Depois de tanto tempo sem receber, esperávamos pelo menos dois meses completos”, explicou.
Sem o apoio regular do Estado são-tomense, os estudantes dependem essencialmente de um subsídio concedido pelas autoridades marroquinas, no valor aproximado de 250 euros a cada dois meses. No entanto, esse montante é considerado insuficiente para cobrir despesas básicas como alimentação, alojamento, transporte e material escolar.
“Esse dinheiro não chega. Temos que pagar casa, alimentação e material escolar. Há colegas que fazem apenas uma refeição por dia, e às vezes é só pão”, relatou.
“Se não pagarmos a renda, vamos para a rua. Então, às vezes temos mesmo que escolher, ou comer ou pagar a casa”, acrescentou.
Embora alguns estudantes recebam ajuda das famílias, muitos pais em São Tomé e Príncipe enfrentam dificuldades económicas e não conseguem enviar apoio financeiro regular.
De acordo com a estudante, a situação tem tido consequências profundas no bem-estar dos mesmos, referindo que casos de ansiedade, depressão e isolamento têm sido cada vez mais frequentes.
“Há alunos com depressão, há alunos que já não querem sair de casa, já não querem falar com ninguém. Há alunos que já não vão às aulas, outros estão presentes, mas não conseguem concentrar-se. Pensamos constantemente em como vamos sobreviver no dia seguinte”, contou.
O contexto académico no Reino de Marrocos, considerado exigente e maioritariamente ministrado em francês, torna ainda mais difícil a adaptação, sobretudo sem estabilidade financeira.
Além disso, a legislação local não permite que estudantes estrangeiros exerçam atividade profissional enquanto estudam, o que limita ainda mais as possibilidades de sustento.
Perante o agravamento da situação, os estudantes apelam ao Governo de São Tomé e Príncipe para que cumpra os compromissos assumidos e regularize o pagamento das bolsas.
“Estamos aqui para estudar e voltar para contribuir para o desenvolvimento do país. Mas precisamos de condições mínimas para viver”, sublinhou.
A estudante alerta que, sem uma intervenção urgente, o problema poderá levar ao aumento do abandono escolar e comprometer a formação de quadros qualificados para o futuro do país.
Enquanto aguardam uma solução, a realidade permanece dura, estudar no estrangeiro, para muitos destes estudantes, deixou de ser um sonho e tornou-se uma luta diária pela sobrevivência.