O presidente do parlamento são-tomense, Abnildo D’Oliveira, admitiu ser amigo do chileno ex-conselheiro especial do primeiro-ministro, detido a pedido da Interpol por indícios de vários crimes, incluindo organização criminosa e branqueamento de capitais.
“Foram por minhas mãos que o senhor veio para São Tomé e Príncipe”, admitiu Abnildo D’Oliveira, afirmando que houve um antecedente quando apresentou o chileno à ex-presidente do parlamento, o qual não revelou, porque o caso encontra-se sob a alçada da Justiça.
A declaração aconteceu durante a sessão plenária de quarta-feira, após insistência e acusações de vários deputados da Ação Democrática Independente (ADI) que exigiram esclarecimentos sobre o assunto.
“O senhor foi-me apresentado pelo senhor vice-presidente de então [Abnildo D’Oliveira], que confirma que, mesmo quando o recebi no meu gabinete, conversamos das parcerias que ele poderia ajudar-nos, que era a questão dos painéis para a energia renovável, porque nós estávamos a braços com a questão energética. Nem com ele falei sobre algum valor”, declarou a ex-presidente da Assembleia Nacional Celmira Sacramento.
Após as declarações de Celmira Sacramento, que confirmaram informações avançadas pela Lusa há um mês, Abnildo D’Oliveira começou por sublinhar que a lei permite ao presidente da Assembleia Nacional “dispor de conselheiros que entender, contudo, sem direito a qualquer remuneração”, e que “não constitui crime” apresentar alguém para exercer alguma função.
“O senhor não é traficante de drogas, não é traficante de armas, não é traficante de seres humanos. Tem uma questão com a justiça, é meu amigo e eu assumo”, declarou Abnildo D’Oliveira.
Na sequência destas revelações, o líder parlamentar da ADI, Nito Abreu, lamentou o envolvimento de membros dos órgãos de soberania em “negócio com pessoas perigosas”, num “cenário que tem manchado a pátria”.
“Isto é uma mancha que colocou o país num estado negro e envolvendo órgãos de soberania […] não se pode admitir ter um país em que o Presidente da República, primeiro-ministro estão envolvidos em negócios estranhos”, disse Nito Abreu.
No dia 10 de março, a Polícia Judiciária (PJ) de São Tomé e Príncipe deteve um cidadão chileno procurado pela Interpol que tinha sido, até ao mês anterior, conselheiro especial do primeiro-ministro são-tomense, Américo Ramos.
Numa nota publicada no Facebook, a PJ referia que o detido estava “indiciado pela prática de vários crimes, correspondentes e igualmente punidos pela lei são-tomense, tais como, organização criminosa, burla, crime contra a fazenda pública, branqueamento de capitais e crime de falsificação de documento comercial”.
A detenção ocorreu “na sequência da emissão por parte das autoridades judiciárias espanholas de mandado de detenção internacional/notícia vermelha divulgada pela INTERPOL”, afirmava.
Segundo fontes parlamentares e documento consultado pela RSTP, Ignacio Purcell Mena, de 54 anos, também havia sido nomeado conselheiro da ex-presidente da Assembleia Nacional Celmira Sacramento, em agosto do ano passado, mas foi exonerado após o Ministério dos Negócios Estrangeiros ter rejeitado um pedido de emissão de passaporte diplomático a seu favor.
Segundo a fonte parlamentar, o homem foi apresentado às autoridades são-tomenses pelo atual presidente da Assembleia Nacional, Abnildo D’Oliveira, que na altura exercia as funções de vice-presidente do parlamento.
Questionado pela RSTP na altura, Abnildo D’Oliveira não confirmou nem desmentiu as informações, mas adiantou que se pronunciaria sobre o assunto em “momento oportuno”.
Em 22 de fevereiro, também a pedido da Interpol, a PJ são-tomense deteve um cidadão sueco “pela prática de crimes de ofensas corporais grave, detenção e uso de armas proibidas, violação sexual grave com recurso a administração às vítimas, contra a sua vontade expressa e mediante uso de força, de drogas incapacitantes da sua resistência”.
Carlsson Stig Karl-Magnus, que foi extraditado na semana passada, nasceu em 08 de janeiro de 1964, detinha um passaporte diplomático são-tomense como conselheiro diplomático do Presidente, Carlos Vila Nova, que assegurou, após a detenção, que o sueco “tinha um registo criminal limpo” aquando da nomeação para trabalhar em projetos na saúde e segurança marítima no Golfo da Guiné.
Em abril de 2022, numa situação semelhante, o Presidente são-tomense exonerou um conselheiro especial, Stephan Welk, de nacionalidade alemã, face às notícias do seu alegado envolvimento em tráfico de influências.
Na altura, o chefe de Estado são-tomense justificou a decisão com a necessidade de “acautelar a imagem externa” de São Tomé e Príncipe face às notícias que indicavam que o exonerado se encontrava “sob processo de investigação”.