“Clamor da Elisabete”: Sara Carvalho transforma dor em música para eternizar a memória da “Princesa Elisabete”

A canção, surge como uma homenagem à memória de Elisabete Bom Jesus e um grito de esperança para todas as vítimas de abuso sexual, transformando em música uma história de dor, coragem e fé que marcou São Tomé e Príncipe.

Música -
Sara Carvalho

A jovem cantora cristã são-tomense, Sara Carvalho, lançou no dia 3 de junho a canção “Clamor da Elisabete”, em homenagem à memória de Elisabete Bom Jesus Sacramento, apelidada de “Princesa Elisabete”, adolescente são-tomense vítima de abuso sexual, que faleceu em 2025, cuja história comoveu o país e mobilizou uma onda de solidariedade nacional e internacional.

Sara Carvalho diz que a música surge como um grito de esperança, fé e resistência para todas as vítimas de violência sexual. A canção foi inspirada na convivência que Sara manteve com Elisabete durante os difíceis meses em que a jovem lutava pela vida.

Conhecida pelo seu envolvimento na igreja e pelo amor à música desde a infância, Sara Carvalho tornou-se uma das jovens que mais acompanhou Elisabete durante o período de internamento. Embora não fossem amigas próximas antes da tragédia, Sara recorda ter desenvolvido um carinho especial pela adolescente assim que voltou a encontrá-la no hospital.

Eu senti um amor que, em toda a minha vida, nunca tinha sentido“, revelou a jovem em entrevista à RSTP.

Segundo a cantora, as visitas tornaram-se frequentes. Levava filmes, músicas, atividades recreativas e palavras de encorajamento. Muitas vezes, inventava desculpas para permanecer mais tempo no hospital, determinada a estar ao lado daquela que passou a tratar carinhosamente por “princesa”.

A ligação emocional entre as duas fortaleceu-se ao longo dos meses. Sara observava atentamente as reações de Elisabete, especialmente quando alguém mencionava o episódio traumático que havia mudado a sua vida. Foi a partir dessas observações, das conversas com familiares e dos momentos partilhados que nasceu a letra da canção.

Contar essa história é algo muito difícil, mas a música surgiu como se fosse a minha dor que está no papel”, descreveu.

A letra retrata os medos, as lembranças, o sofrimento e a luta interior de Elisabete, mas também transmite mensagens de força, dignidade e esperança.

De acordo com a cantora, as expressões como “Eu sou forte”, “Eu sou princesa” e “Eu sou sublime” surgem na canção como uma resposta às marcas emocionais deixadas pelo abuso, procurando substituir sentimentos de culpa e desvalorização por autoestima e autocompaixão.

Para Sara, a música pretende recordar às vítimas que o sofrimento não define o seu valor enquanto pessoas, afirmando que a sua intenção vai além de uma homenagem individual.

Sobre essa questão de abuso sexual, nós sabemos que, querendo ou não, essa é a realidade e nunca vai parar de acontecer. Mas a música é uma tentativa de lembrar que, independentemente de passar por essas circunstâncias, existe uma parte dentro de nós que nos faz lembrar que nós somos fortes, não pelas nossas próprias forças, mas em Cristo”, precisou.

Segundo Sara Carvalho, a canção foi apresentada a Elisabete ainda durante o período de internamento e chegou a ser cantada várias vezes junto à jovem.

Elisabete Bom Jesus Sacramento nasceu a 1 de setembro de 2007. Ainda adolescente, foi vítima de uma brutal agressão sexual que lhe causou graves lesões físicas e neurológicas.

Após semanas em coma no Hospital Ayres de Menezes, em São Tomé, os médicos consideraram o seu estado irreversível. No entanto, a família nunca perdeu a esperança. A mãe relatava pequenas melhorias e continuou a lutar por tratamento especializado para a filha.

Depois de mais de seis meses de espera, Elisabete foi finalmente transferida para Portugal no dia 30 de dezembro de 2024, onde passou a ser acompanhada no Hospital Pediátrico de Coimbra.

A viagem representava uma nova esperança para familiares, amigos e para todos aqueles que acompanhavam o caso. Contudo, a batalha chegou ao fim pouco tempo depois.

No dia 16 de janeiro de 2025, Elisabete faleceu em Coimbra, aos 17 anos.

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