A adoção estratégica e inclusiva da Inteligência Artificial (IA) poderá acrescentar até um bilião de dólares ao Produto Interno Bruto (PIB) de África até 2035, impulsionando setores como a agricultura, saúde, finanças e indústria e criando oportunidades para a maior população jovem do mundo, segundo um relatório do Banco Africano de Desenvolvimento (AfDB).
A IA Como Novo Motor De Produtividade Em África
Intitulado Africa’s AI Productivity Gain: Pathways to Labour Efficiency, Economic Growth and Inclusive Transformation, o estudo foi desenvolvido no âmbito do G20 Digital Transformation Working Group e elaborado pela consultora Bazara Tech.
Segundo o jornal Economico Report, o relatório sustenta que a África reúne condições singulares para beneficiar da revolução da IA, incluindo crescimento da capacidade digital, demografia favorável e reformas sectoriais em curso, posicionando o continente como uma das regiões mais promissoras para o crescimento impulsionado por tecnologias emergentes.
Ganhos Económicos Concentrados Em Sectores-Chave
Ao contrário de uma difusão homogénea dos benefícios, o AfDB alerta que o “dividendo da IA” será altamente concentrado em sectores com maior peso económico e maior prontidão tecnológica. A análise identifica cinco sectores prioritários — agricultura (20%), comércio grossista e retalhista (14%), indústria transformadora e Indústria 4.0 (9%), finanças e inclusão financeira (8%) e saúde e ciências da vida (7%) — que, em conjunto, poderão captar 58% dos ganhos totais, cerca de 580 mil milhões de dólares até 2035.
Segundo o relatório, estes sectores combinam escala económica, capacidade de adopção de soluções baseadas em IA e elevado potencial de impacto inclusivo, nomeadamente na criação de emprego, melhoria da produtividade laboral e expansão do acesso a serviços essenciais.
Cinco Pilares Para Desbloquear O Dividendo Da IA
O AfDB sublinha que o potencial económico da IA não será automático, dependendo da consolidação de cinco factores interligados. O primeiro é a disponibilidade de dados fiáveis e interoperáveis, condição essencial para gerar conhecimento e soluções eficazes. O segundo é a infra-estrutura computacional escalável, necessária para implementar aplicações de IA à escala continental. O terceiro pilar reside nas competências, exigindo investimento na formação de quadros capazes de desenvolver, implementar e manter sistemas de IA. O quarto factor é a confiança, construída através de quadros de governação, regulação e ética que sustentem a adopção responsável da tecnologia. Por fim, o relatório destaca a necessidade de capital, público e privado, para reduzir riscos, acelerar a inovação e transformar pilotos em soluções de mercado.
Roteiro Em Três Fases Até 2035
Para operacionalizar esta visão, o relatório propõe um roteiro em três fases. A fase de ignição (2025–2027) deverá concentrar-se em políticas, projectos-piloto e investimentos iniciais. A fase de consolidação (2028–2031) visa escalar soluções bem-sucedidas e fortalecer ecossistemas nacionais e regionais. Finalmente, a fase de escala (2032–2035) deverá permitir a integração plena da IA nos sectores produtivos, maximizando os ganhos de produtividade e impacto económico.
Segundo o Director de Desenvolvimento Industrial e Comercial do AfDB, Ousmane Fall, o desafio do continente deixou de ser conceptual: “A questão já não é saber o que fazer, mas fazê-lo a tempo”, sublinhando que o cumprimento de metas iniciais até 2026 será decisivo para colocar o “volante da IA africana” em movimento.
AfDB Disponível Para Mobilizar Investimento
O AfDB sinalizou disponibilidade para mobilizar investimento de apoio às acções prioritárias identificadas no relatório, apelando ao envolvimento activo dos governos e do sector privado. Para Nicholas Williams, responsável pela área de TIC do Banco, o objectivo é assegurar que o investimento se traduza em ganhos reais de produtividade e criação de empregos de qualidade, evitando que a adopção da IA aprofunde desigualdades existentes.
Ao projectar a Inteligência Artificial como um catalisador de produtividade e inclusão, o relatório do AfDB coloca a tecnologia no centro da agenda de desenvolvimento africana, mas deixa claro que o sucesso dependerá menos da ambição declarada e mais da capacidade de investir, regular, formar e escalar soluções—num horizonte temporal que não admite atrasos.