País -

A Democracia Santomense Está a Ser Empurrada Para o Abismo — E Fingir Que Está Tudo Bem É Parte Do Problema

A tentativa de “golpe” de 2022 foi, entretanto, um terramoto político. E, ao contrário do que muitos tentam vender, não foi um “episódio isolado”. Foi o sintoma de um sistema doente, onde forças paralelas, interesses militares e alianças obscuras ainda têm espaço para tentar moldar o destino deste país.

Passados os três anos do “golpe” de 25 de novembro de 2022 e, decorrente deste, o cenário político sombrio que se instalou na terra de nome santo, faço hoje a memória das memórias esquecidas, sem rodeios e sem verborreias.

Sim, basta de rodeios e verborreias: a democracia em São Tomé e Príncipe está fragilizada, vulnerável e à beira de um golpe político. E as eleições legislativas de 2026 que se avizinha só tornam essa realidade ainda mais gritante do que nunca. Aliás, o país até agora vive de improviso democrático, sustentado por elites que disputam o poder como se fosse propriedade privada, e não uma responsabilidade pública expressa no compromisso com o desenvolvimento nacional.

A verdade é simples e dura, vejamos: os últimos anos têm mostrado o quanto o sistema pode ser manipulado, forçado ou contornado quando os interesses em jogo são grandes e diferenciados. E ninguém parece verdadeiramente interessado em mudar isso.

Ora, governos descartáveis, líderes descartáveis, país estagnado… A instabilidade política deixou de ser exceção e tornou-se regra. Quando se faz de uma exceção uma regra, ocorre uma inversão de valores e da ordem estabelecida, o que leva a consequências como a perda de clareza, a normalização de erros e a potencial erosão de sistemas (como a democracia ou o direito). Além disso, uma exceção é, por definição, um desvio de um padrão ou norma convencionalmente aceita. Ao tratá-la como regra, o padrão original perde o seu significado e a previsibilidade é comprometida. Enfim, em vez de governos sólidos, temos governos descartáveis, derrubados ao sabor de intrigas internas, egos inflamados e disputas pelas migalhas do poder.

Cada crise traz um novo discurso de “compromisso com a democracia”, mas o povo já aprendeu: é só teatro político. Enquanto isso, o país continua parado — e a democracia também. O “golpe” de 25 novembro 2022 não foi acidente: foi aviso!

A tentativa de “golpe” de 2022 foi, entretanto, um terramoto político. E, ao contrário do que muitos tentam vender, não foi um “episódio isolado”. Foi o sintoma de um sistema doente, onde forças paralelas, interesses militares e alianças obscuras ainda têm espaço para tentar moldar o destino deste país.

E quando a violência entra no jogo político, a democracia começa a sair pela porta do fundo! Corrupção silenciosa, negócios sombrios e cidadãos cansados; Não há democracia saudável onde reina o segredo. Negócios pouco claros, disputas por terra, favoritismos, contratos escondidos, decisões tomadas à porta fechada — tudo isto alimenta uma desconfiança pública que está a corroer as instituições por dentro. E a classe política parece esquecer um detalhe essencial: um povo que deixa de acreditar no Estado deixa de acreditar na democracia.

Portanto, 2026 pode ser o ano da viragem — para melhor ou para muito pior…! As próximas eleições não serão apenas uma data marcada no calendário.
Serão um teste brutal à credibilidade do sistema. Nesta altura, é indispensável elaborarmos quatro a cinco questões para reflexão com vista a acautelarmos os erros do meio século da independência:

Haverá transparência?
Haverá recenseamento credível?
Haverá contagem limpa?
Haverá respeito pelo resultado, ganhe quem ganhar? Ou vamos repetir o mesmo ciclo de acusações, manipulações, ameaças e contestações que já conhecemos de cor?

(…) “é mais burro aquele que não aprende com os erros e a história do passado” (Marcelo Rebelo de Sousa).

Enfim, a democracia santomense não aguenta mais um colapso – Ou os líderes mudam de atitude / ou o país muda de líderes!

Está na hora de assumirmos o óbvio: quem disputa o poder tem de colocar o país acima do ego. Tem de parar de transformar a política num mercado de favores. Tem de respeitar instituições, processos e limites. Se não o fizerem, então sim, será o povo — nas urnas ou nas ruas — que terá de os substituir. E já não será o MLSTP, ADI, MDFM, BASTA, PCD, MCI e companhias; não! Não será mais estes. Porque a democracia não é só votar; A democracia é responsabilidade, é transparência, é maturidade política. E está claro, mais do que nunca, que São Tomé e Príncipe precisa urgentemente de assumir o seu real lugar com provas viáveis no ranking das melhores democracias da África Central lusófona.

(…) “é impossível amar São Tomé e Príncipe e não sofrer” (Conceição de Deus Lima – in Lisboa: lançamento do livro O Mundo Visto do Meio)

 

Euclides das Neves | Santana – Cantagalo (25 Nov 2025)

 

 

Comentar
 

Comentários

ATENÇÃO: ESTE É UM ESPAÇO PÚBLICO E MODERADO. Não forneça os seus dados pessoais nem utilize linguagem imprópria.

Últimas

Topo