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Eleições 2026 – As alianças políticas de ferro e barro

As eleições determinam hoje muito do que é (e continua a ser) a nossa experiência de governação. Consolidou-se em nós a percepção de que a eleição é o momento privilegiado do povo exercer a sua soberania. Diria mesmo que, para a consciência contemporânea, é altura de exigir mais dos nossos possíveis representantes. Mais transparência. Mais responsabilidade.

Há muito ficou registada a inconsistência de ferro misturado com barro. Elejo aqui um versículo bíblico. 

“Quanto ao que viste do ferro misturado com barro, misturar-se-ão por meio de alianças humanas, mas não se ligarão um ao outro, assim como o ferro não se mistura com o barro” (cf. Dn 2,43). 

O que o profeta Daniel procurou alertar – com o seu estilo, no seu tempo, segundo a sua perspetiva sociopolítica – é, seguramente, outra coisa.

Parece, no entanto, uma ilação razoável a extrair deste ensinamento bíblico. 

O versículo é antigo, tão antigo que quase tudo está dito. Não ouso negar que isto, em certas alianças eleitorais, se pode verificar. Se calhar nele não encontramos a resposta, mas, mais importante, nele encontramos uma chamada de atenção, apresentada à maneira de uma conclusão experiencial, naquilo que temos experimentado em nós mesmos.

Mas o meu ponto é este: uma união política ou social construída apenas por conivência humana, sem bases profundas de coesão, tende a permanecer frágil e dividida. Sublinho aqui esta correlação, porque ela, no essencial, parece sugerir que haverá mesmo uma possibilidade política para a dita aliança eleitoral nas próximas eleições, construída não em torno de projetos nacionais consistentes, mas de conveniências momentâneas.

Os motivos por que o digo hão de ser (re)vistos e justificados em momento oportuno. Por ora, basta-nos prestar bem atenção à formação de coligações, acordos e entendimentos entre atores políticos que, até há pouco tempo, se apresentavam como adversários irreconciliáveis. Em teoria, as alianças são instrumentos legítimos da democracia. O problema surge quando elas não resultam de uma visão comum para o país, mas apenas do desejo de conquistar ou conservar o poder.

O raciocínio parece simples: tal como o ferro e o barro, estruturas políticas construídas sobre interesses circunstanciais podem parecer fortes por fora, mas revelam-se frágeis diante das primeiras dificuldades. Com demasiada frequência, a história política do nosso país oferece exemplos de alianças que nasceram da aritmética parlamentar, mas não conseguiram sobreviver. Profundamente marcados pelos seus feitos e defeitos, como as divergências internas, as disputas pessoais ou a ausência de um projeto coletivo. 

Passamos já por tanto, que estamos hoje bem mais desconfiados acerca da credibilidade das alianças políticas e, sobretudo, da capacidade de muitos dos seus feitos. Muitos eleitores (com inegável convicção, diga-se) já não se contentam com promessas. Para darmos o nosso sim, precisamos de coerência, de competência e de compromisso inadiável. Precisamos que nos convençam.

Porque subsiste em nós uma atitude racional crítica. Gerou-se em nós um tal padrão de exigências de ordem intelectual que desacreditamos das alianças que somam números, mas não constroem confiança; ou então, de acordos que garantem vitórias eleitorais, mas não asseguram governabilidade. 

As eleições determinam hoje muito do que é (e continua a ser) a nossa experiência de governação. Consolidou-se em nós a percepção de que a eleição é o momento privilegiado do povo exercer a sua soberania. Diria mesmo que, para a consciência contemporânea, é altura de exigir mais dos nossos possíveis representantes. Mais transparência. Mais responsabilidade. Mais clareza sobre os programas governativos. Daí que é imperativo que os debates entre os candidatos (que publicamente se espera ver) devem centrar-se menos nas vidas pessoais e mais nas ideias; menos nas rivalidades partidárias e mais nas soluções para os problemas concretos que afetam a vida dos são-tomenses. 

Este alerta do livro de Daniel tem uma óbvia verdade universal: nenhuma sociedade prospera quando a sua liderança carece de unidade de propósito. Não podemos tomar este facto como mero acaso: as eleições não devem servir apenas para escolher governantes, mas para traçar um rumo comum para a nação.

Pergunte-se pois: Estamos a construir uma democracia sobre alicerces sólidos ou apenas a juntar ferro e barro? A resposta a essa pergunta poderá determinar não apenas o resultado que se preconiza para as próximas eleições, mas também a qualidade da democracia e do desenvolvimento que queremos legar às gerações vindouras.

Por: Francisco Salvador

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