O Pragmatismo da política externa chinesa e o seu lugar na Nova Ordem Internacional
A iniciativa chinesa de manter diálogo simultâneo com Washington, Moscovo, Bruxelas e África evidencia uma estratégia de equilíbrio cuidadosamente calculada, característica de um Estado defensor, incontestável, do multilateralismo.

Nelson Nazaré
Num contexto internacional marcado por tensões geopolíticas, fragmentação económica e redefinição das alianças estratégicas, a política externa da China tem demonstrado uma característica central: o pragmatismo. Mais do que uma postura ideológica rígida, Pequim tem procurado posicionar-se como um actor indispensável no equilíbrio da ordem internacional contemporânea, dialogando simultaneamente com diferentes pólos de poder, muitas vezes rivais entre si.
As recentes interações diplomáticas da liderança chinesa com figuras e blocos políticos distintos ilustram claramente esta abordagem pragmática. A aproximação e os contactos mantidos com Donald Trump, mesmo em períodos de forte rivalidade comercial e tecnológica entre a China e os Estados Unidos, demonstram que Pequim compreende que a estabilidade económica global exige canais permanentes de comunicação, independentemente das divergências políticas.
Ao mesmo tempo, a consolidação da parceria estratégica com a Rússia reforça a intenção chinesa de promover um sistema internacional menos centrado no Ocidente e mais multipolar. A relação sino-russa tem sido apresentada como uma cooperação baseada em interesses convergentes, particularmente no domínio energético, comercial e na defesa de uma ordem internacional onde a soberania estatal e a não ingerência sejam princípios fundamentais.
Contudo, seria incorreto interpretar a diplomacia chinesa apenas como uma oposição ao Ocidente. As visitas e contactos de dirigentes europeus, incluindo o Pedro Sánchez, a Ursula von der Leyen e António Costa, demonstram que a União Europeia continua a considerar a China um parceiro económico incontornável. Apesar das divergências em matérias comerciais, tecnológicas e de direitos humanos, prevalece uma lógica de interdependência. A Europa procura reduzir vulnerabilidades estratégicas, mas não pode ignorar o peso chinês nas cadeias globais de produção, investimento e comércio.
Paralelamente, a relação entre a China e os países africanos representa talvez uma das manifestações mais visíveis do pragmatismo chinês. Os sucessivos encontros entre líderes africanos e a liderança chinesa revelam uma cooperação centrada em infraestruturas, financiamento, comércio e desenvolvimento. Diferentemente das abordagens tradicionais ocidentais, frequentemente associadas a condicionalidades políticas, Pequim tem privilegiado uma diplomacia económica baseada no princípio da não ingerência e no benefício mútuo. Esta postura tem permitido à China consolidar uma presença crescente em África, tornando-se um parceiro estratégico fundamental para muitos países do continente.
Neste contexto, merece destaque a recente decisão chinesa de implementar medidas de tarifa zero para os produtos provenientes de países africanos, política que entrou em vigor em 1 de maio. Esta iniciativa representa mais um exemplo da visão pragmática de Pequim na sua relação com África. Ao facilitar o acesso dos produtos africanos ao mercado chinês, a China procura fortalecer as trocas comerciais, estimular as exportações africanas e consolidar a sua influência económica no continente. Para muitos países africanos, trata-se de uma oportunidade importante para diversificar mercados, aumentar receitas de exportação e reduzir barreiras comerciais historicamente existentes nas relações económicas internacionais.
Ao mesmo tempo, esta medida reforça a imagem da China como parceiro do desenvolvimento africano, sobretudo num momento em que muitos países enfrentam desafios económicos, inflação global e dificuldades de acesso ao financiamento internacional. A política de tarifa zero não deve ser vista apenas como um gesto económico, mas também como um instrumento diplomático de soft power, através do qual Pequim amplia a sua presença política e estratégica no Sul Global.
A iniciativa chinesa de manter diálogo simultâneo com Washington, Moscovo, Bruxelas e África evidencia uma estratégia de equilíbrio cuidadosamente calculada, característica de um Estado defensor, incontestável, do multilateralismo.
Na realidade, a política externa chinesa parece assentar numa leitura profundamente pragmática do sistema internacional: num mundo cada vez mais polarizado, a influência não se constrói apenas através da força militar, mas sobretudo pela capacidade de manter relações funcionais com todos os centros de poder. A China compreende que a nova ordem internacional não será determinada exclusivamente pela ideologia, mas pela capacidade dos Estados de articularem interesses económicos, estratégicos e diplomáticos de forma flexível.
Assim, as recentes movimentações diplomáticas envolvendo líderes americanos, russos, europeus e africanos revelam que a China já não é apenas um ator emergente, mas um dos principais pilares da atual arquitetura internacional. O seu pragmatismo diplomático, aliado ao peso económico e tecnológico, faz da China um elemento incontornável na definição dos equilíbrios globais do século XXI.
Por: Nelson M Nazaré