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O Progresso do Atraso em São Tomé e Príncipe: Como Transformar o Arrependimento em Consciência Nacional- Vicente Coelho

A verdadeira mudança começa quando um povo deixa de adaptar-se às suas dificuldades históricas e decide recusá-las como destino permanente.

Há países que parecem avançar, mas continuam presos aos mesmos problemas de sempre. Em São Tomé e Príncipe, surgem novos projetos, multiplicam-se discursos sobre desenvolvimento, turismo, modernização e crescimento económico, mas grande parte da população continua a enfrentar desemprego, dependência externa, dificuldades sociais e uma profunda desconfiança nas instituições públicas.

É o retrato do “progresso do atraso”: mudanças aparentes que convivem com velhas fragilidades políticas, económicas e culturais.
Ao longo das últimas décadas, São Tomé e Príncipe viveu sucessivas promessas de transformação. Falaram-se de petróleo, investimentos internacionais, reformas estruturais e crescimento sustentável. No entanto, muitos desses sonhos acabaram por gerar frustração coletiva. O arrependimento surge então depois de cada crise política, de cada oportunidade perdida e de cada governo que prometeu mudança sem conseguir alterar profundamente a realidade do país.
Mas o arrependimento, sozinho, não muda uma nação.
Uma sociedade só começa verdadeiramente a transformar-se quando o arrependimento deixa de ser apenas emoção e passa a tornar-se consciência coletiva. Isso exige coragem para reconhecer erros históricos, decisões políticas falhadas e práticas sociais que contribuíram para manter o país dependente, vulnerável e fragilizado.
Muitas vezes, em vez de refletir criticamente sobre os problemas nacionais, prefere-se procurar culpados externos ou acreditar que todas as dificuldades resultam apenas da dimensão do país ou da falta de recursos. No entanto, o atraso de uma nação raramente é apenas económico. Também pode ser político, cultural e institucional.
Existem países pobres com elevada consciência cívica e países com recursos que permanecem presos à corrupção, ao clientelismo e à instabilidade. O verdadeiro desenvolvimento não depende apenas de dinheiro ou infraestruturas, mas da capacidade de uma sociedade construir instituições fortes, pensamento crítico e responsabilidade coletiva.
Em São Tomé e Príncipe, um dos maiores desafios continua a ser a fragilidade das instituições e a cultura política baseada em ciclos repetitivos de promessas, divisões partidárias e desconfiança popular. Mudam os governos, mudam os discursos, mas muitas vezes permanecem os mesmos problemas estruturais: dependência económica, administração pública fraca, dificuldades na educação, falta de oportunidades para os jovens e concentração de poder político.
A indignação popular, por si só, não resolve esses problemas. Revolta sem consciência estrutural apenas produz alternância de protagonistas, sem transformação verdadeira. Um país só começa a mudar quando compreende profundamente os mecanismos que sustentam o seu atraso.
E essa transformação não começa apenas na política. Começa também na cultura, na educação e na capacidade de um povo imaginar um futuro diferente.
Antes de grandes mudanças institucionais, existem sempre mudanças de mentalidade. Professores, jornalistas, escritores, artistas, associações comunitárias, jovens empreendedores e cidadãos conscientes desempenham um papel fundamental porque ajudam a reconstruir aquilo que sociedades fragilizadas frequentemente perdem: a confiança coletiva e a imaginação social.
Um povo deixa de lutar quando deixa de acreditar que pode construir algo melhor.
Por isso, o futuro de São Tomé e Príncipe não depende apenas de investimentos estrangeiros, ajuda internacional ou novos governos. Depende igualmente da capacidade da sociedade desenvolver pensamento crítico, participação cívica e responsabilidade coletiva.
Também é necessário abandonar a ideia de que um único líder salvará o país. Muitas sociedades permanecem presas ao atraso porque esperam constantemente um “salvador político”. Essa mentalidade enfraquece a cidadania e transfere responsabilidades coletivas para figuras individuais. Nenhuma transformação duradoura nasce apenas de líderes; nasce da organização social, da participação contínua e da maturidade cívica.
Ao mesmo tempo, é fundamental combater o sentimento de impotência que cresce quando os problemas parecem eternos. Pequenas conquistas concretas tornam-se então extremamente importantes: uma escola que melhora, uma comunidade organizada, uma gestão pública transparente, um projeto cultural independente ou um jovem que cria oportunidades para outros. São essas pequenas mudanças que restauram a confiança nacional e demonstram que o progresso verdadeiro é possível.
São Tomé e Príncipe não precisa apenas de crescimento económico. Precisa de consciência nacional, instituições credíveis, educação crítica e uma cultura política mais madura.
O chamado “progresso do atraso” continuará enquanto o país aceitar modernização sem transformação estrutural, democracia sem participação crítica e desenvolvimento sem justiça social.
A verdadeira mudança começa quando um povo deixa de adaptar-se às suas dificuldades históricas e decide recusá-las como destino permanente.
Porque o futuro de São Tomé e Príncipe não será definido apenas pelos recursos que possui, mas sobretudo por aquilo que a sua sociedade decidir deixar de tolerar.
Por: Vicente Coelho
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