A implosão da ADI e o dividendo político do MLSTP: o paradoxo Américo Ramos- Ludomilo Almeida
Há erros políticos que custam eleições. Outros custam carreiras. E existem aqueles, mais graves, que alteram completamente o equilíbrio de forças de um país.
Na minha leitura, Américo Ramos corre o risco de ficar associado ao terceiro caso. Em 2022, a ADI liderada por Patrice Trovoada conquistou 30 dos 55 deputados da Assembleia Nacional, contra 18 do MLSTP-PSD. Não estamos a falar de uma vitória circunstancial. Estamos a falar de uma maioria absoluta dada pelos eleitores santomenses. A ADI tinha conseguido aquilo que qualquer grande organização política procura: uma base eleitoral consolidada, uma liderança reconhecível e uma máquina política capaz de vencer eleições. O MLSTP, por sua vez, tinha acabado de sofrer uma derrota significativa e regressava à oposição. Dois anos depois, quem poderia imaginar que o maior favor político feito ao MLSTP não viria necessariamente de dentro do MLSTP, mas da própria fragmentação da ADI?
É aqui que entra Américo Ramos. Depois da demissão de Patrice Trovoada pelo Presidente da República, em janeiro de 2025, Américo Ramos foi escolhido por Carlos Vila Nova para chefiar o Governo, algo que, para muitos observadores, já fazia parte de um plano previamente delineado, pelo facto de o Presidente não ter devolvido novamente ao povo a decisão e ter rejeitado os nomes indicados pela ADI, apesar da oposição da direção do partido, então liderada por Patrice Trovoada. A partir daí, iniciou-se uma profunda rutura dentro da ADI.O que começou como uma disputa sobre
a chefia do Governo transformou-se progressivamente numa disputa pelo controlo da própria ADI.
Houve deputados que romperam com a direção, militantes afastados, uma nova correlação de forças no Parlamento e, finalmente, um congresso contestado do qual Américo Ramos saiu proclamado presidente do partido. Em julho deste ano, o Tribunal Constitucional reconheceu-o formalmente como presidente da ADI, decisão que a ala fiel a Patrice Trovoada continua a rejeitar. Pode discutir-se juridicamente quem tem
razão, mas politicamente existe uma pergunta muito mais interessante: Américo Ramos conquistou realmente a ADI ou ficou apenas com a
estrutura formal de um partido cuja principal força eleitoral pode continuar ligada a Patrice Trovoada?
Patrice Trovoada frequentemente e em jeito de orientação politica, subentendidamente diz aos seus seguidores que “ partidos políticos não são
apenas sedes, carimbos, estatutos, decisões judiciais”. Partidos são, acima de tudo, “pessoas e que a ADI tem alma”. No seu último comunicado, Patrice Trovoada acaba de orientar os militantes e simpatizantes que lhe permanecem fiéis para se absterem nas eleições legislativas e autárquicas de 27 de setembro, em protesto contra aquilo que considera ser o afastamento ilegítimo da sua direção.
A decisão pode ser discutível, pode até revelar-se politicamente arriscada, mas as suas consequências não podem ser ignoradas. Se uma parcela significativa do eleitorado que em 2022 deu à ADI os seus 30 deputados decidir seguir essa orientação, teremos diante de nós um paradoxo extraordinário: Américo Ramos poderá ter conseguido o nome ADI e, simultaneamente, perdido uma parte importante dos eleitores que deram força à ADI.
E quem poderá receber o maior dividendo deste conflito? O MLSTP.
Um MLSTP que saiu das legislativas de 2022 com apenas 18 deputados e que colocou precisamente as eleições legislativas de 2026 no centro da sua
estratégia de regresso ao poder. Aqui reside aquilo que considero ser um dos maiores erros estratégicos desta operação política. Para enfraquecer Patrice Trovoada, fragmentou-se a maior força eleitoral do país, para retirar Patrice da liderança política, abriu-se uma guerra interna dentro da ADI, para controlar a estrutura, corre-se agora o risco de perder o eleitorado. E, enquanto todos estavam concentrados em derrotar Patrice Trovoada dentro da ADI, o MLSTP ficou do lado de fora a assistir à destruição do seu principal adversário. É por isso que considero possível que a história venha a reservar uma ironia política extraordinária: O projeto concebido para construir o poder de Américo Ramos poderá acabar por reconstruir o poder do MLSTP.
Não esqueçamos que, apesar de estar na oposição, o MLSTP contribuiu parlamentarmente para impedir a queda do Governo de Américo Ramos numa moção de censura apresentada em 2026. Na política, raramente existem gestos inocentes, cada força protege aquilo que considera útil aos seus interesses e talvez o MLSTP tenha percebido aquilo que alguns dentro da própria ADI não perceberam: Um ADI dividida vale eleitoralmente muito menos do que uma ADI unida sob Patrice Trovoada.
O erro de Américo Ramos poderá, portanto, não ter sido apenas desafiar Patrice. Foi eventualmente acreditar que retirar o comandante significava
automaticamente herdar o exército. É exatamente por isso que as eleições de 27 de setembro serão tão importantes. Serão elas — e não os comunicados, os congressos, os tribunais ou as proclamações — que permitirão medir quanto vale eleitoralmente cada uma destas forças.
Se Américo Ramos conseguir conservar o eleitorado histórico da ADI, terá provado que a sua estratégia funcionou e talvez terá declarado o fim
da era Patricista. Se não conseguir, terá protagonizado uma das operações politicamente mais contraproducentes da nossa história recente. E, se dessa fragmentação resultar o regresso expressivo do MLSTP ao poder, a ironia ficará completa: aqueles que disseram estar a renovar a ADI poderão ter sido precisamente aqueles que abriram a porta para o regresso do seu maior adversário.
É o velho princípio do xadrez político: não basta capturar peças. É preciso perceber a posição que fica no tabuleiro depois de cada captura. Américo
Ramos e os seus aliados capturaram várias peças: O Governo, Deputados, a estrutura partidária, a liderança formal da ADI. Mas falta saber se conservaram a peça decisiva: o eleitor.
E talvez então alguns percebam que a verdadeira forma de encerrar politicamente o ciclo de Patrice Trovoada nunca foi tentar removê-lo através de
sucessivas batalhas institucionais, era muito mais simples. Era vencê-lo nas urnas.
Porque, numa democracia, a derrota mais limpa de um político continua a ser aquela que lhe é imposta pelo povo.
Eu acredito.
Por: Ludomilo Almeida