Os defensores das línguas nacionais alertaram para o risco de desaparecimento das línguas criolas em São Tomé e Príncipe, devido a crescente desvalorização do Estado e ao reduzido número de falantes e apelaram por adoção de medidas urgentes de preservação, incluindo a promoção da cultura nacional e a introdução dessas línguas no currículo escolar.
“Se todos os países falam a sua língua, por que razão nós não podemos falar a nossa? A terra é nossa, por isso não podemos esquecer a nossa língua”, acrescentou Sun Gleza, em entrevista à RSTP.
Segundo estas personalidades, que representam figuras da cultura e da identidade nacional, um dos fatores que contribuiu para o abandono das línguas nacionais é a vergonha que muitos nativos sentiam. Uma herança do período colonial.
“Desde o tempo dos brancos não se podia falar a nossa língua, porque diziam que era uma língua de animal”, recordou Gleza.
“Diziam que era língua de cão. Diziam isso porque não conseguiam entender o que falávamos”, afirmou Sun Gleza, acrescentando que o crioulo era frequentemente associado a pessoas sem instrução ou que não sabiam ler nem escrever.
São Tomé e Príncipe possui pelo menos quatro línguas crioulas: o forro, o angolar, o lunguyé e o crioulo dos descendentes dos cabo-verdianos contratados para as ilhas. Apesar de constituírem importantes elementos da identidade nacional, estas línguas são cada vez menos utilizadas no quotidiano.
Gleza, uma das figuras mais antigas da cultura nacional, tem promovido a língua forro através do teatro, da participação em músicas e pelos meios de comunicação social.
“Nós fazemos algumas coisas porque temos amor pela nossa língua. O que faz com que ela se perca e deixe de ser falada é o desinteresse. Nós que trabalhamos por ela não vemos nada. Não ganhamos nada”, lamentou Sun Gleza.
“Trabalhei durante 40 anos e o que recebo são 1.200 dobras de reforma. Comecei na cultura aos 14 anos e hoje tenho mais de oitenta anos. São 67 anos dedicados à cultura”, frisou.
Atualmente, são poucas as pessoas que dominam estas línguas e, entre alguns dos que as falam, utilizam-nas apenas em contextos familiares ou reservados.
Fernando Pinto, compositor nacional, tem utilizado a arte como instrumento de promoção das línguas nacionais. O compositor defende que há necessidade de unir diferentes gerações em torno da preservação deste património cultural.
“Nós, que somos mais velhos e conhecemos melhor a cultura, devemos unir-nos e ajudar os jovens. O Ministério da Cultura e os dirigentes não valorizam suficientemente o nosso trabalho. Antigamente compravam instrumentos, trajes e outros materiais para apoiar a cultura”, afirmou Fernando Pinto.
Os defensores da cultura nacional consideram ainda que a vergonha associada ao uso das línguas crioulas e a falta de investimento público na valorização da cultura têm contribuído para o seu declínio.
Entre as críticas apontadas está a insuficiente promoção das línguas nacionais através da música, das artes e de outras manifestações culturais, consideradas ferramentas fundamentais para a transmissão de conhecimentos às novas gerações.
“Se o Ministério da Cultura quiser que levantemos a cultura, tem de nos ajudar, procurar meios e envolver os jovens para que, juntos, possamos valorizá-la”, defendeu Sun Gleza.
Apesar das dificuldades, algumas associações culturais têm desenvolvido iniciativas em escolas para aproximar os jovens das línguas nacionais, como a Associação Cultural Caravana Africana, da qual faz parte Eliane Viegas que, embora não fale fluentemente as línguas nacionais, defende a implementação de políticas públicas destinadas à sua preservação e fortalecimento.
“As entidades competentes deveriam implementar o crioulo forro como disciplina. Criar manuais para os alunos e incentivar os jovens cantores a cantarem em português e em crioulo forro, de forma a valorizar aquilo que é nosso”, sugeriu a estudante Eliane Viegas.
Alguns órgãos de comunicação social também têm contribuído para a divulgação destas línguas através de programas de rádio e televisão.
Ainda assim, os promotores culturais consideram que os esforços atuais são insuficientes e reiteram a necessidade de uma estratégia nacional capaz de garantir a sobrevivência deste património linguístico.
Os defensores apelam igualmente à introdução das línguas nacionais no currículo escolar, como forma de assegurar a sua transmissão às futuras gerações.
Contactada pela RSTP para comentar as ações em curso ou previstas para a preservação das línguas nacionais, a Direção da Cultura não se mostrou disponível para prestar declarações.
A contínua redução do número de falantes e a limitada valorização social das línguas crioulas nacionais alimentam preocupações quanto ao seu futuro e à possibilidade de desaparecimento de uma parte importante da identidade cultural são-tomense.